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a festa do boi

27.06.17

 #bumba meu boi #julia vargas #sao paulo



Há uma qualidade de tempo que vem se perdendo em meio ao caos urbano, esquecida entre notificações de WhatsApp, esmagada nos metrôs lotados, chutada por passos apressados de quem anda com a mente em outro lugar. Mas, como disse a designer Paula Dib, existem pequenos portais pra um tempo mais amplo, e um deles pode ser encontrado no contato com as crianças. Quero apresentar a vocês agora um outro portal: aquele que é oferecido pela Cultura Popular


Vivi um tempo precioso na última festa do Bumba meu Boi, manifestação da Cultura Popular maranhense, que acontece aqui em Sampa, em um bairro chamado Morro do Querosene. Por doze horas, a rua foi minha! As batidas do pandeirão ressoaram no meu corpo e pra onde olhei, vi tecidos e fitas de cetim em movimento. Dancei ao lado de gente pequena e gente grande e no cair da noite vi uma multidão se ajoelhar e ficar bem quietinha observando o batizado do Boi.


“Quando chega a época da festa sinto nostalgia da infância. Não consigo me ver sem o Boi, sem o Cupuaçu, eles me trazem uma alegria muito grande. Entro num estado de transe do começo da festa até o final, e nos ensaios também. Quando canto uma toada, ou danço, deixo transparecer aquilo que estou sentido no momento, é quase uma sessão de terapia. O boi me mantem sã nessa sociedade cruel.", me contou Juliana Carvalho, integrante do Cupuaçu, grupo de estudo de danças populares brasileiras que organiza a festa há mais de 25 anos. Assim como outros integrantes do grupo, ela nasceu no Morro do Querosene e brinca de Boi desde pequenininha. 


Também conversei com Ana Flor, filha do Tião Carvalho, fundador do grupo e da festa do Morro. Seu pai veio do Maranhão e seus avós estão lá até hoje. Ela me fala de um tempo onde as manifestações culturais eram algo natural, o brincar estava inserido no dia a dia e cada comunidade tinha suas próprias brincadeiras. Hoje isso vem se perdendo, engolido pela globalização. "É preciso resgatar e preservar. Me preocupo com as pessoas da minha idade que não tem contato nenhum com a Cultura Popular. Aqui no Morro somos uma comunidade de resistência. Minha luta é a manutenção dessas brincadeiras!”.


A Flor é uma das poucas mulheres que toca o pandeirão durante a festa: “É muito novo isso da mulher tocar no Boi, até dançar se você for pensar, coisa de um século pra cá. As comunidades tradicionais são muito machistas e nelas se crê que a mulher não pode segurar um instrumento pesado. Várias vezes fui tocar em alguma comunidade e tomaram o instrumento da minha mão pra dar pra algum homem. O machismo está muito arraigado, mas aqui no Grupo tem uma galera disposta a desconstruir.”


 
A Festa do Boi deixou uma marca permanente no Morro do Querosene. Nas últimas décadas,  pessoas com interesses parecidos foram sendo atraídas pro bairro, de modo que hoje ele pulsa arte e cultura e tem um senso de comunidade muito forte. Agradeço ao universo por morar perto e poder fazer parte dessa grande festa. 

Agradeço às mãos que batem forte no couro do pandeiro.
Aos cuidadores do fogo que o mantêm aceso a noite toda.
Aos adultos que viram crianças por um dia.
E às crianças que correm e dançam em liberdade amaciando o tempo rígido das metrópoles. 
E especialmente ao Boi por abrir a portinha do brincar.

Fotos do Boi Mirim, na Festa do Boi, no dia 18 de Junho de 2017. Clicks de Julia Vargas.


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