em 

TODO O SITE  

a fina flor do café

30.11.17

 #flor do café



Café tem cheiro de casa da gente, de pão na chapa e bolo quente, de tarde preguiçosa, de manhã apressada, tem gosto de reunião importante e conversa fiada. Café tem história, efeito e memória, está nos livros e pede a companhia de um.  Nasceu na Africa, viajou séculos e continentes, se renovou em modismos, mas nunca deixa de ser tradição (e quem é doido de abrir mão?)

Mas pra Milena Rodrigues café é ainda mais, tem outras cores, nuances e texturas, suscita passado e futuro, se quem cresceu vendo o bom e velho cafezinho da terra à flor. Mineira de Nepomuceno, a jornalista e escritora sentiu um chamado de volta a sua terra, aonde criou com amigos de infância e familiares uma associação que reuniu produtores locais, pesquisadores e apaixonados, pra incentivar a produção local, e criar cafés muito especiais, a Flor do Café.



De quebra nos apaixonamos por essa história, e fomos conversar um pouco com a moça, que também acaba de lançar seu primeiro livro, Mi Maior:

Qual a primeira coisa que te vem à memória quando você sente cheiro de café?

O café tem cheiros muito diversos e característicos. Por ser fruta, tem um cheiro muito adocicado, quando está maduro no pé, e de alguma acidez, lembrando um pouco o cheiro de um pomar de laranjeira. Esse cheiro, definitivamente, me faz lembrar do meu pai, de quando saímos juntos, na minha infância, para visitar as lavouras e ver o entardecer no campo.
O cheiro do café depois de colhido, enquanto os grãos são secados ao sol em um grande terreiro, é simplesmente maravilhoso, com todos os açúcares naturais da polpa da fruta se desprendendo e envolvendo o grão como uma película. Durante esse processo, que dura em torno de dez dias, dependendo do manejo de cada fazenda, o café tem um cheiro de mel, licor e melado, lembrando também alguns vinhos espumantes. Um cheiro totalmente afrodisíaco, pra mexer com a libido.



Depois, quando o café é beneficiado - quando a casquinha é retirada e resta apenas o grão verde, ele pode exalar um cheiro mais cítrico, lembrando às vezes ervas aromáticas que, mesclado ao cheiro do saco de juta, onde é geralmente armazenado, cria uma atmosfera olfativa mais rústica, com cheiro de campo, de madeira, de mato - uma delícia. Para mim é o cheiro de um lugar seguro. 
Finalmente, quando o café é bem torrado e um processo químico mágico acontece, com a  liberações dos óleos essenciais do grão, centenas de aromas podem ser percebidos: frutas, caramelo, chocolate, cacau, mel, castanhas, amêndoas, além de notas amadeiradas e florais. Os cafés especiais brasileiros são realmente únicos, com cada região, cada clima, cada espécie e cada maneira de cultivo nos indicando um caminho sensorial diferente. Não há dúvida de que todos esses cheiros me fazem lembrar do que eu chamo de casa.  
    


Quando foi essa volta às origens, qual foi o grande estalo?

Faço parte da quinta geração de cafeicultores, tanto pelo lado paterno quanto materno. De alguma forma, o café está na minha memória genética e, acho que por isso, seria inevitável voltar ao campo, voltar à terra, como um "destino do coração". Há cerca de dois anos, conversando com um amigo do interior que também havia vivido longe dali, pensamos se nós, "vindos de fora", poderíamos fazer algo de diferente pelos nossos cafés, em benefício das nossas famílias e da nossa cidade, uma das grandes forças produtoras do Sul de Minas.  Então surgiu a ideia de criarmos uma Associação para, primeiro, reconhecer os nosso cafés, entender quais características sensoriais  dos nossos grãos indicariam um "terrior", para, depois, buscar melhores canais e venda e divulgação do nosso trabalho. Mas o curioso é que, por todos esses anos, quase duzentos, o café produzido em nossa região nunca foi visto como a especiaria que é. E o que nós temos tentado é mostrar isso ao mundo e também ao  nosso "povoado."



Como foi pra reunir esse time, que junta família, amigos de infância e especialistas em café pelo mundo?

Na verdade, tem sido algo fácil, divertido e muito prazeroso. As pessoas, em qualquer parte do mundo, amam café e adoram fazer parte de qualquer coisa que envolva café. Nossa ideia passa por valorizar uma região produtora e, sobretudo, os produtores. Produzimos cafés de qualidade, de notas sensoriais riquíssimas e queremos que os consumidores saibam de onde vem esse café, qual produtor, em qual fazenda e por qual processo esse café foi produzido. Por outro lado, nós também queremos saber quem consome nosso café: qual cafeteria, de qual cidade, de qual bairro, de qual país. A produção de cafés especiais busca entender e manter essas relações entre produtor e consumidor. E cria ótimas oportunidades para todos os envolvidos nessa cadeia mágica que traz o café até nossas xícaras. Para notas de ilustração, saiba que há, em média, 23 pessoas envolvidas diretamente para cada xícara de café especial que você possa tomar. Uma reunião de esforços e ideais em apenas um cafezinho.

As embalagens são criadas por artistas em edições especiais, como foi esse ideia?

Nós entendemos que há muito mais que cafés para serem oferecidos aos consumidores. Existem os benefícios que uma Associação traz para o homem do campo, encontrando canais de vendas diretos, para que eles possam receber mais pelo seu produto e existe a busca por uma agricultura de precisão, cada vez mais sustentável. Existe ainda o resgate cultural de toda uma região e, por fim, existe também a valorização do design brasileiro e da exploração das embalagens de café como uma plataforma de divulgação da arte feita aqui. É isso que nós queremos "entregar" aos consumidores.



Aonde encontrar os cafés criados e distribuídos pela Flor de Café?

Todos os nossos cafés são especiais e produzidos por nossos associados, em sítios e fazendas que compõem a Flor de Café.  Nossos cafés estão em algumas (poucas) cafeterias e restaurantes espalhados pelo Brasil, porque entendemos a importância de mantermos a produção artesanal, de qualidade e critério em relação ao café que servimos. As embalagens de 250 gr, ideais para espresso ou para o preparo de cafés coados, também estão à venda em nosso site, com entregas diretas na casa dos consumidores. É só entrar lé e pedir. Nossas torras são mensais e nos preocupamos em entregar uma torra sempre fresca para aqueles que estão buscando algo para se apaixonar.

E a melhor cia pra um cafezinho é um bom livro, conta um pouco sobre seu primeiro livro, ele traz um pouco de sua infância e suas memórias da região?

Curiosamente, não. Eu tinha mesmo essa ideia, de um dia escrever sobre o interior, o campo, sobre as minha memórias e o lugar onde nasci, mas Mi Maior (7 Letras), é antes um livro de contos urbanos, cosmopolitas e contemporâneos, nos quais os personagens são todos masculinos.

Mas meu próximo livro, a ser lançado em julho do ano que vem, tem como temática o café, em suas várias formas, vidas e reencarnações.



Com leite, sem açúcar, expresso, carioca... como você prefere o seu café?

Não importa o método, o café une, aconchega, agrega povos e continentes. Eu prefiro sem açúcar, sempre, porque o café especial, é sempre muito doce. Fomos educados no Brasil a beber um café muito ruim, com torras muito escuras, queimadas, justamente para que não se percebesse a presença das impurezas misturadas ao café, como gravetos, pedras, palhas, casca de café, além de grãos doentes, mofados e mal formados. O café especial, nada mais é do que apenas café. Bem cuidado, bem tratado e cada vez mais amado por quem o conhece.



Hmmm, quem mais ficou com muita vontade de tomar um bom café? indecision
 
TOPO