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a música e a força de liège

10.05.17

 #barbara muller #belém #liège #pará



Liège é cantora, compositora e intérprete, cresceu em Mosqueiro - praia de água doce a alguns quilômetros de Belém, no Pará - cidade onde mora atualmente e onde vem conquistando cada vez mais espaço e fãs. 

Foi falando de música, passado, futuro e, claro, de sonhos, que realizamos a entrevista, na "Ilha do Combu", às margens do Rio Guamá. Chegamos de barquinho e de cara fomos recebidas com um arco-íris. Depois dessas “boas vindas”, só poderia vir papo bom pela frente, né?


Quando você conhece Liège a fundo, entende que cada letra que ela canta tem o sentimento forte e real de quem já passou por poucas e boas: a luta contra seu próprio machismo, o processo de aceitação de sua carreira como cantora, suas descobertas, sua batalha como mãe aos 23, os embates com a família e sociedade. Como ela mesma diz: "Já passei por tanta coisa, que hoje se um raio cair na minha cabeça, sinto que eu poderia levantar e seguir".

Pra entender como ela seguiu essa carreira, basta olhar o quê e quem esteve a sua volta: sua avó, dona Joana, poliglota que toca cavaquinho desde o 5 anos de idade, além de piano e violão (que aprendeu com seu pai musicista e professor de flauta doce), toca até hoje, aos 91 anos.

Seu avô, Joanilson Baker Agrassar, foi precursor da "Rádio Cipó", popular na cidadezinha de Mosqueiro, mesmo lugar onde sua mãe começou a trabalhar como locutora aos 16 anos e onde conheceu o pai de Liège. Grávida, ela acabou desistindo da carreira na música, o que, por pouco, não se repetiu com sua filha.


 
A Rádio do seu avô, um símbolo da sua história. Em visita recente, se emocionou relembrando e sentindo toda a carga de sua ancestralidade, enxergando de forma tão real e crua o impacto do tempo, nos móveis e em si própria. O tempo é mesmo lindo e assustador. 


Aos 11 anos Liège já usava o violão do irmão e, de forma autoditada, aprendeu a tocar. Ao mesmo tempo, ganhava prêmios de poesia de escola e foi com essa mesma idade que compôs sua primeira música. Quando completou 15 anos, um amigo de seu pai, que tocava em uma banda tradicional da cidade, a viu cantar e convenceu sua família a deixa-la cantar nos barzinhos. Sua história nunca existiu sem a música e o destino desde cedo parecia já desenhar os caminhos em que ela seguiria. Sua missão era, mesmo, cantar

Quando engravidou de sua filha Lis, decidiu que pararia de cantar e começou a trabalhar como servidora pública, mas sem deixar de compôr, e seguiu empilhando arsenais de letras nas gavetas. Incentivada por amigos e por músicos, como o grande violinista Salomão Habbib que, ao ver suas composições, a fez prometer que ela investiria em suas canções autorais, e ainda Felix Robatto, que tinha acabado de sair da banda e da produção musical da cantora conterrânea Gaby Amarantos e procurava artistas pra produzir, o grande sonho começou. Em 2013 gravaram, em parceria com Dan Bordallo, sua primeira música, "Toute la vie", que homenageia sua filha, junto com um videoclipe que ela considera um verdadeiro registro familiar.


Em 2014 a artista teve problemas de saúde, passou por  cirurgias e descobriu que tinha um tumor: "De repente me vi em meio a um furação. 2014 foi um ano de transformação interna, em que me percebi como uma mulher forte, com uma história de vida forte. Acho que a doença me fez repensar os meus vários caminhos, e que aquelas canções construídas de forma tão leve talvez não me representassem mais", confessa.

Enquanto conversávamos, lembrei de um show que Liège fez em 2015, em um festival local, e no qual eu estava na plateia. No período, Liège estava doente e o médico a liberou apenas pra cantar sentada e sem se mexer muito, devido ao risco do tumor estourar. Ainda assim, ela cantou "Filho de Gal" com toda sua força e diz ter recebido uma energia tão intensa nesse dia que, quando acabou ao show, ela já não lembrava o que tinha feito. Quem a conhecia se preocupou, porque ela não apenas levantou, como dançou do início ao fim. Terminou o show e as pessoas gritavam e aplaudiam, eufóricas: “Foi um impacto sentir, pela primeira vez, as pessoas gritando enquanto eu tocava nas suas mãos”.

Ela acredita que a música possui algo que vai além da sua compreensão. Assim como o processo de composição, que normalmente ocorre as 3:00 da manhã:  "Eu escrevo e acordo lembrando da melodia, mas não consigo lembrar do raciocínio que me levou a construir aquelas palavras. Me emociono e é muito forte, porque sei que não fui eu, que fui apenas um instrumento de algo não terreno. Pode parecer tolo, clichê, mas me sinto um portal, por isso creio que essa é sim a minha missão."


Depois de ter passado por várias fases, sua música se transformou "Chegou um momento que ficou insuportável cantar coisas tão doces, como "Tout la Vie", sentindo coisas tão diferentes dentro de mim. Uma nova Liège nasceu, desconstruindo tudo e minha música mudou. Canto liberdade de expressão, sexual e de gênero, de ser o que se quer ser. Falo sobre diferenças sociais, canto contra padrões, não sou a mesma pessoa e as minhas composições também mudaram. Mudei até o meu jeito de vestir e a minha música é bem mais agressiva, direta e reta", conta. 

Ano passado Liége teve o prazer de sentir a energia do mesmo palco que seria ocupado por uma das maiores vozes da música brasileira, voz feminina transgressora na qual ela se espelha e admira desde a adolescência, Gal Costa. Ela abriu o show com a composição “Filho de Gal”, canção que, não por acaso, leva o nome da cantora. Nesse ano, Liége lança ainda uma composição junto com Dona Onete, outro nome feminino que a inspira.


Recentemente a artista abriu shows do Jonny Hooker, Tiê, cantou junto com o Baile do Simonal em Belém, e várias outras portas estão se abrindo. Dia 11 de maio, Liège se apresenta em SP, no Baderna Bar. Dia 13 de maio ela estará na casa Francisco, em Santa Tereza, no RJ. E em julho desse ano embarca em uma empreitada internacional, com uma temporada fazendo turnê no estado norte-americano do Texas

A entrevista foi uma delícia e encerramos comendo caranguejo, vendo o pôr do sol e ouvindo Liège dar canja com seu violão. Ela finalizou: "É disso que eu quero viver, é o que eu quero fazer, vou correr atrás até o fim e buscar o meu espaço. Tem muita gente me apoiando, meu público, meus figurinistas, produtores, músicos, amigos, gente que acredita em mim, e por eles e para eles, eu não posso e não vou parar".

Editorial Liège - Vitória leona 
Figurino - Johnatan Camelo 
Colaboração - Viny Araújo 
Fotos Radio - Tereza Maciel 


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