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aprendiz de mãe, com Paula Dib

12.05.17

 #dia das mães #julia vargas #paula dib



“Entendi o significado da palavra visceral ao tornar-me mãe”, diz a moça de camisa florida, sentada na minha frente em um café. Seus olhos são verdes e muito vivos, e às vezes pousam em mim, curiosos. 

Essa mulher é Paula Dib, designer, articuladora social e amiga muito querida. Paula se considera aprendiz de mãe, e não sabe se algum dia vai deixar de ser. Sua jornada da maternidade começou há menos de 3 anos, quando engravidou do Pedro. “Ser mãe é caminhar o tempo todo por um novo lugar, sempre carregado de emoções. É um processo que se dá por aqui” e me aponta a boca do estômago. Pergunto sobre o começo de tudo, a gravidez. 


“Logo no inicio da gestação, a sensação é de estar abrindo espaço. O corpo começa a ser tomado por uma atividade completamente nova e contrária ao ritmo externo. Você tem urgência de fazer coisas, mas quer descanso. Depois que o corpo acolheu esse novo movimento, muito fluiu. Entrei em um lugar de potência, ao perceber que nós mulheres temos a capacidade de gestar uma vida dentro da barriga. Pensava: essa é a minha natureza como mulher, é a potência feminina que existe em mim.”

Pedro chegou um pouco antes do esperado, com 37 semanas. Durante uma ligação com um grupo de artesãs do Piauí, veio uma primeira contração; era o trabalho de parto começando. “Entrei nesse lugar da partolândia e segui meus instintos, me entreguei ao que estava acontecendo. Vivenciando as contrações, imaginava o mar com as ondas fortes que vinham e iam. Neste lugar não existe controle, não existe conter, é quando o corpo consente. O Antonio, meu marido, soube ser sensível a este momento, ele foi um elemento decisivo pra minha alma."


 
Paula se mudou recentemente pra uma casa com um jardim. Ter um pouquinho de terra já tem feito grande diferença na sua rotina com Pedro. Outro dia eles passaram uns 20 minutos observando como uma das taturanas andava buscando lugar para fazer um casulo. “Com a natureza mais presente, os ciclos ficam mais evidentes, você começa a olhar pros detalhes. O Pedro me ajuda muito a estar nesse lugar do singelo, da miudeza, da presença. Ele me convida a entrar num ritmo oposto ao qual estamos vivendo hoje em dia. Gosto de me desconectar do mundo e entrar em contato profundo com ele. Hoje em dia é desafiador porque a gente está sempre sob muita demanda. Mas eu sinto que deixar o meu filho me levar a esse lugar é de uma importância enorme pro processo de desenvolvimento dele e me dá dicas do que é realmente essencial."


Pras crianças tudo é experiência, explica: “jogar o iogurte na mesa, sentir o iogurte caindo na perna, ser derrubado pelo mar, cavar e descobrir que a areia é mais fria embaixo. Eles são cientistas, estão investigando. Com essa consciência, ao invés de pensar 'ai, que bagunça' quando ele joga algo no chão, me ponho curiosa e penso: o que ele está descobrindo? Mas, é claro, existem alguns limites. Eu tento trazer consciência de que tudo tem causa e conseqüência. Sujou, vamos limpar. Como designer, eu sinto muito que nos falta uma noção maior de causa e consequência no mundo. Qual é a consequência de construir uma hidroelétrica, por exemplo?”

No final do nosso papo, acompanhado de croissant de amêndoas, pergunto como fica a individualidade no processo da maternidade. “Sou uma coisa completamente misturada com meu filho. Se eu estou triste, ele fica triste, estamos conectados por fiozinhos transparentes. Eu ainda estou na busca desse meio termo: nem sair e me desconectar, nem ficar só naquele casulinho delicioso”. 

Ilustração de Julia Vargas, fotos de Antonio Lino e Javier Cifre “Porni”.


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