em 

TODO O SITE  

às avós, nossos tesouros submarinos

26.07.17

 #ancestralidade #dia da avó #nathalia lima verde



Avós são como tesouros submarinos. É preciso vestir um escafandro e num mergulho íntimo, escavar as jóias nos dentros do mar.  Nas matriarcas estão contidas muitas memórias, histórias, saberes, informações, vidas condensadas. São mulheres que carregam em si um legado precioso de experiências e leituras do mundo, que já integraram todos os arquétipos e estão prontas para partilhar seus compêndios e relicários. São a persistência encarnada.  Me parece que em tempos onde só a juventude é cultuada, acabamos por desperdiçar uma herança que nos é de direito.  Notei que essas mulheres minguam sem a perspectiva do compartilhamento, como se de alguma forma, estivessem assistindo a algo muito valioso se deteriorar por falta de lida. Como uma terra fértil onde nada é semeado. As coisas se dão a partir da relação entre as partes. 

O culto à juventude e à matéria nos escraviza, especialmente a nós, mulheres, nos cobrando padrões estéticos impossíveis, plantando em nós uma espécie de medo do tempo. É como se não pudéssemos percorrê-lo, como se envelhecer fosse proibido e tivéssemos de evitar o inevitável, como se fosse necessário nos manter pra sempre moças e disfarçar de todas as maneiras possíveis a passagem dos anos. Isso tem fomentado uma negação em nós, nos impedido de entrar em contato, de acessar e valorizar nossas origens, os lugares de onde viemos. Isso nos assalta. E aumenta a distância, afeta nossas possibilidades de trocas e diálogos inter-geracionais. A mim, pessoalmente, como mulher e como artista, não me interessa sustentar essas exigências. Ao contrário, trabalho para subvertê-las a minha própria criação e espontaneidade.



Esses padrões não cuidam da nossa necessidade de conexão, de expressão, de honestidade, de diversidade, de respeito às nossas heranças. Essa ditadura está longe de ser uma questão de saúde. Acho que isso não serve à vida, não colabora. E para mim essa resistência é um tipo de militância, de ativismo. Aprender a amar a mim mesma, a ser quem sou. Não reproduzir esses discursos e cobranças, como regras. É um trabalho profundo, esse, eu sinto. Que exige coragem, porque a pressão é muito forte. Um novo-mundo-novo se precipita e há de nascer através da escuta. Precisamos voltar a ouvir nossas avós. A cultura oral é muito importante, desde os povos originais. Como diria, meu mestre no teatro, Amir Haddad: "Quem não sabe de onde vem, não sabe para onde vai". E se temos pretensões e a necessidade de co-criar uma realidade que cuida melhor da vida, de inventar um novo tempo, diferente desse frenético, um tempo mais doce com a gente, um novo ritmo para nós, que nos dê a chance de cuidar de nós mesmas e umas das outras, de engendrar mais beleza no dia-a-dia; precisamos saber de onde viemos para, enfim canalizar os vetores das nossas vontades e materializar um presente-translúcido. Precisamos colher matéria-prima viva e a partir daí criar novidades. 

Em alguma medida creio que estamos todas trilhando caminhos de volta pra casa, em direção às nossas essências, descobrindo nossas verdadeiras fragrâncias, talentos, dons, anseios, poderes. Nossa cultura ocidental nos impulsionou demasiado para fora e estamos reaprendendo a atuar no mundo a partir de um centro. Nós, mulheres, somos visionárias, como os artistas, anunciamos o que está por vir, convertemos dor em beleza, somos, naturalmente, aparelhadas para a criação, temos um útero, um centro de poder, para vislumbrar e materializar sonhos, somos as senhoras da forma e do tempo. E intuo que estamos todas grávidas de um presente-futuro-super-novo. 



Avós são como bússolas, são pistas nesse caminho de volta ao lar. É chegado o tempo de saudá-las, de honrá-las. Dou vida as minhas avós, através da minha própria trajetória.

Depois da morte delas, as incorporei na minha jornada. Sinto que integrei a força contida nelas, recebi da vida esse axé e ganhei muita força extra. Na natureza, as árvores mais velhas, quando tombam, concedem alimento às mais jovens e entregam seus próprios corpos em sacrifício. Creio que funciona mais ou menos assim conosco também. Existe um ditado no Quênia que diz: "É muito fácil ouvir o barulho das grandes árvores caindo, mas é preciso muita atenção para escutar o barulho da floresta crescendo". Sinto que estamos vivendo um tempo muito desafiador. A Joana Macy, da Ecologia Profunda, diz que no futuro, esse tempo será conhecido como o tempo da Grande Virada. E enquanto tudo parece estar ruindo, existem no mundo inteiro, movimentos incríveis de regeneração da vida. Creio ser importante escolhermos onde queremos colocar, conscientemente, as nossas energias, é uma questão de escolher onde focar. Promover mais aquilo que amamos ao invés de apenas delatar o que não serve, me parece fundamental. Algo sobre auto-responsabilidade e serviço nesse tempo de re-invenção. 



Embora não seja esse o foco dos noticiários de TV e das manchetes dos jornais, eu vejo que está em curso uma revolução "silenciosa", provocando mudanças profundas e sem paralelo nas nossas maneiras de existir, de enxergar e de se relacionar com o mundo. Uma passagem de uma sociedade autodestrutiva e voltada para o crescimento industrial para uma sociedade que dá sustentação à vida. 

Honrar os ritos de passagem, os saberes ancestrais, as curas, as celebrações e até resignificá-las me parece um legado que cabe a nós. Meu trabalho, como artista autoral, tem sido um percurso de reconhecimento, de valorização, de acolhimento e de desobediência. Um caminho de co-criação. Meu projeto, a CONCHA <Ritual-Mágico-Cênico>, um círculo de mulheres, é uma pesquisa, uma prática, um movimento artístico e de desescolarização, um híbrido das minhas pesquisas em teatro, sobre ritos culturais-ancestrais e o feminino. Um eco, um chamado que faço a outras mulheres para arar esse terreno, para fertilizar e engendrar novas realidades, para resignificarmos, no presente, o que é a beleza, o que é o corpo, o que é o tempo... É um movimento de desdoma, de desamortecimento, de liberdade e empoderamento. 



Sou muito grata a todos os Círculos e Conselhos dos quais tenho feito parte, aos Círculos de Mulheres, de Enluto, aos Grupos de Prática de Comunicação Não Violenta, aos processos criativos e de auto-conhecimento ... estas são a expressão mais autêntica de beleza que tenho visto, e a beleza, para mim, são os nossos poderes manifestos, a expressão das nossas verdades interiores, o livre compartilhar das nossas potências. Tudo isso atrelado a um comprometimento profundo com a tomada de auto-responsabilidade.  São muitos os desafios, mas é um bom trabalho e é preciso começar e persistir, de alguma maneira. O meu rezo, meu labor e a minha energia estão plantadas e se movimentando nessa intenção.  
Salve a sabedoria das Avós! Pelos erros e acertos, pelas tentativas e fracassos, pela força-viva que são! Desejo que possamos honrá-las enquanto há tempo! Boa colheita para todas nós!



>> A gente convidou a Nathalia Lima Verde pra escrever o texto acima. Ela é artista, atriz, pesquisadora, artista visual e performer e atua no projeto autoral, o CONCHA, que rola uma vez por mês no Rio. A próxima edição do encontro é dia 16/8. Anima de ir? Escreve pra ela no nathalialimaverde@hotmail.com. Ela tá abrindo um espaço-ateliê-alma, onde recebe mulheres para atendimento individual, também no Rio. Vale saber mais! 
TOPO