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dia do folclore, dia de festejo

22.08.17

 #dia do folclore #juliana linhares



Em Natal, dos 2 aos 17 anos estudei numa escola que todo 22 de agosto festejava o dia do Folclore. E não era só sobre as lendas, os mitos famosos, Boitátá, Curupira, Iara e as cantigas de roda. Eles faziam uma feira de tradição popular, traziam artesanato, cordel, dança, música, comidas. Eu amava comer Puxa Puxa. Tenho memória das rezadeiras que ficavam num canto mais afastado da feira. Minha mãe, católica, me levava pra tomar os passes. Depois eu gostava de ver as apresentações de Capoeira, Coco, Boi, Mateus e Catirina, o Pastoril. Os grupos vinham de longe e eu sentia que aqueles momentos eram especiais. O dia do Folclore pra mim tem muito da tradição popular nordestina, sobre a qual ainda jovem eu começava a me apoiar.


 
Tive sorte de ver as fogueiras na época de São João, de ver o Reisado pelas ruas, de pai pra filho. De ouvir forró Pé de Serra. De muito nova entrar nas rodas de Ciranda no meio da cidade e me juntar aos coros do Coco que se cantava no Rio Grande do Norte. Quando a FARM me pediu uma playlist pro dia hoje, pensei na infinidade de possibilidades da nossa música de raiz e sabia que não daria conta de um Folclore inteiro em uma lista de 15 músicas. Pensei em colocar um pouco de cada canto do Brasil, mas não consegui sair do Nordeste. Resolvi então passear pelas tradições nordestinas, que são as minhas, e dividir com vocês grandes referências. Queria também trazer algo da minha terra, do RN, tão pouco conhecido por aí afora, mas que tem em seu berço o maior folclorista brasileiro, Luis da Câmara Cascudo. Ele, que se interessou por entender a cultura e estudar a formação da sociedade a partir das tradições populares, nos deixou uma obra incrível. Pus, então, na minha lista, três compositores e cantores conterrâneos importantes: Elino Julião, Dosinho e Khrystal.


 
Pesquei umas coisas mais antigas, trouxe Gonzagão na voz de Marinês, que moram em mim vestidos com seus chapéus de cangaceiros. Trouxe Lia de Itamaracá e sua Ciranda, Dona Edith do Prato e o Samba de Roda do Recôncavo, Dona Selma do Coco. E precisei deixar de fora, com pesar, o Frevo de Pernambuco, os Bois e o Tambor de Crioula do Mestre Felipe do Maranhão, a Capoeira, entre outros, por uma escolha. Achei que seria interessante trazer artistas que produzem música contemporânea com influencias da música nordestina e entender como a tradição se modifica e segue atualizada, são alguns: Siba, Lenine, Renata Rosa, Cordel do Fogo Encantado, Antônio Nóbrega. Terminei ainda querendo colocar Spok Frevo Orquestra, Alessandra Leão e Rosa de Pedra, que deixo aqui os nomes pra vocês irem atrás de ouvir.


 
Pesquisando as músicas de carnaval de Dosinho, encontrei uma versão de "Vão me levando" pela cantora paulista Bruna Caram, resolvi colocar pra gente ouvir o resgate que ela fez do compositor potiguar... Minha mãe me conta que uma vez foi surpreendida ao chegar na escola e me ver com o microfone na mão cantando cantigas num dia de Folclore, eu devia ter uns 5 anos. A professora ficou rouca e eu a substituí, risos.
Mainha disse que eu cantava "Ciranda cirandinha", "Perdi meu anel no mar", entre outras. Essas cantigas parece que nascem com a gente, né? Por isso coloquei algumas de Domínio Público na lista também. Pra fechar, um pouco do Reisado do Cariri, cantado pelo amigo Geraldo Junior e "Festejo e Fé" da Pietá, banda da qual faço parte.

É uma música que celebra a diversidade do nosso país e a mistura da fé nos festejos de tradição. Sobre o Brasil e suas cores, sobre tratar com respeito e amor as diferenças que nos unem. Ah, a música é de dois cariocas, mas vai com meu sotaque de Natal, pra não restar dúvidas que é dessa mistura que a gente gosta. Feliz dia do Folclore a todxs!
 

Essa texto foi amorosamente escrito pela Juliana Linhares, cantora da banda Pietá, atriz e artista popular. Pedimos à Ju que criasse uma playlist em homenagem ao dia do Folclore e o resultado foi uma lista linda com esse texto cheio de boas referências e simbolos. Só agradecer! 
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