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FARM entrevista - Gilberto Gil

30.08.17

 #gilberto gil



Eram 15h quando falamos ao telefone: “oi”, dizia a voz do outro lado da linha. Era o Gil. Calmo. Uma gente inteira numa sílaba única. Um homem. Um super-homem. Uma luz. O papo girou pelos entornos de Refavela, álbum que completa 40 anos e que ganha releitura em show inédito na próxima sexta-feira, no Circo Voador, sob direção artística de um dos filhos, o também músico Bem Gil.  



Foi em 77 que o Gil viajou pra Nigéria pela primeira vez. De lá, trouxe a narrativa dessa impressão em música: “Encontrei muita gente como aqui no Brasil e o album é uma tentativa de reflexão sobre a relação estreita entre Brasil e África. De nível mais íntimo, encontrei o habitat original dos orixás". 

O album foi também o pano de fundo do nosso telefonema, quando falamos sobre a vida, o medo da morte, Deus, religião... O Gil aos poucos me presenteava com seu agudo clássico na voz e as respostas se estendiam pra além das perguntas. De repente, ríamos de alguma coisa de graça ingênua: 
 
- Me lembro de uma fala sua importante e linda no início de Yansã (na gravação de 1973). Faz tanto sentido e é tão profunda. 
- Ou é rasa, né? Ele disse em tom carinhoso. O profundo e o raso se complementam. Se confundem o tempo todo.
Silenciamos.
- É profunda. Generosidade sua achar que não!, eu disse. 
E rimos.

[Na fala a qual me refiro acima, ele diz que é um pequenino grão de areia]

E ficamos a mensurar o tamanho do silêncio, do invisível, do mistério: “Deus é um mistério. Existente e inexistente, presente e longínquo. É difícil dizer. É uma relação com o mistério e todo tipo de leitura que você possa fazer do mistério. Tem uma letra de uma música minha que diz exatamente ‘Pois eu sou Deus é e disso que resulta toda criação’. A noção individual do ser e a noção projetada do grande ser, do Deus, ambas as coisas são misteriosas e a gente não dá conta do significado, mas a soma resultante da consciência dão essa noção de que tudo nasce daí, do fato de existirmos, de pensarmos”.



Babá Alapalá, uma das músicas de Refavela, configura bem esse lugar com genealogia e ancestralidade. Fato é que o álbum, mesmo comemorando quase meio século, ainda ilumina questões atuais. Fome, desigualdade, direitos humanos, a sensação de estar perdido e de se encontrar também. E toda essa busca por lógica em torno do o tempo, esse lugar-presente-agora que não se captura em detrimento do “quando”.

- É uma loucura; concordamos. Será que dá pé?

 “Ainda hoje de manhã no meu exercício de fonoterapia pra conservação e preservação da voz, complemento esse exercício com um tipo uma meditação; estava pensando na transformação permanente no campo da individualidade porque a sociedade é um conjunto de indivíduos e a soma da singularidade está submetida a um processo permanente de transformação. Tudo  que se decifra se remanifesta em dimensão misteriosa. Também conversava com uma amiga sobre a grande dificuldade que passa o mundo hoje em dia com 7 bilhões de pessoas. Há tanta dificuldade, pobreza e há tantos avanços, como a descoberta da eletricidade, as revoluções criadas pela química e pela física... A sociedade vem colhendo frutos de um avanço e de um crescimento, mas ao mesmo tempo há muito sofrimento. As pessoas morrem menos de guerra, mas morrem mais de fome. Aliás, hoje, as pessoas morrem mais de comida. A obesidade, por exemplo, afeta setores mais pobres da população mundial. A observação do fluxo sociológico da vida é uma coisa muito complexa, ao mesmo tempo em que o fluxo da individualidade também é. Andamos pra frente e andamos pra trás. Ao mesmo tempo em que caminhos, estamos estacionados. É tudo paradoxo. É minha conclusão inconclusa”.

Tem dado pé...



E tem dado transição, transmutação, contemplação. Gil transcende e manda chamar no timbre, nos movimentos, na linguagem e nas letras a história de muitas Bahias. É claro que o segundo álbum da trilogia (Tem Refazenda e Realce também) merece uma transposição para o palco e em boa companhia: o show vai ter participação do Bem Gil, da Céu, do Moreno Veloso e da Maíra Freitas, clica aqui pra saber mais! 

“O Circo Voador é um lugar muito vivo. Muito intenso. Há convergências de gente várias, de partes diversas da cidade. Eu me lembro dos primeiros tempos do Circo, no Arpoador, depois quando ele se deslocou lá pro Centro... Vem mantendo uma vivacidade muito grande, as gerações vão aprendendo a apreciar a qualidade daquele local, daquele tipo de empenho, é uma coisa muito bonita! Eu estive lá há pouco tempo num show do Bem Jor. Eu adoro o Circo!



O papo estendeu e, meia hora depois, falávamos sobre amor. Gil disse que deve à Flora, sua esposa, a condição de homem de família muito por conta de “um sentimento abrangente que se consolidou pela presença da mulher, que encontrou um espaço generoso para todos”.  

Quase no final da ligação, perguntei brincando se o melhor lugar do mundo continuava sendo aqui e agora.

- SÓ TEM – respondeu rindo. Não há outro. O aqui e agora é irrevogável.
- Ter essa consciência do momento presente é difícil. Faz como pra lidar com tanta ansiedade?
- Transcorrendo, transformando tempo e espaço navegando todos os sentidos...
(citando parte da música "Tempo Rei")

Rimos de novo.

Desliguei o telefone com a alma no aqui, no agora - e em qualquer outro lugar do mundo. Pautar sobre os 40 anos de Refavela me fez pensar sobre a solidez do tempo diante de uma obra autoral. Falar com o Gil me fez, justamente, pensar sobre a liquidez do tempo diante do que não se cria. Ele desconstrói o intelectualismo, a pretensão do óbvio e sopra uma intuição que consegue ser híbrida num mundo - ainda  tão binário. 

Sabedoria ancestral. Bagagem. Semiótica. Que nome tem?
O Gil, pra mim, é um sentimento.  

// O texto foi escrito pela Fernanda Moreira, editora de conteúdo da FARM e pra garantir presença nesse show cola aqui. Nos vemos lá! 
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