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FARM entrevista: Mana Bernardes

11.05.18

 #mana bernardes



Mulher, designer, artista plástica, poeta, artesã e o que mais a criatividade a permitir ser e viver. Essa é Mana, ou Energia Vital na cultura havaiana. Uma dessas pessoas que uma conversa já faz abrir a mente e inspirar a viver também um pouco dessas múltiplas possibilidades do ser.

Conversamos com Mana sobre essas grandezas e miudezas que vêm de dentro pra fora, de fora pra dentro. Entre tantas formas possíveis de criatividade que se espalham por poemas, manuscritos, objetos, esculturas, jóias, a sensação é que ela tá ali, em cada uma, como uma extensão dela mesma. Será?





“É, isso mesmo. Minhas obras são como uma extensão de quem eu sou. O centro de tudo que faço vem da relação com a palavra, letra por letra. Me relaciono com cada letra, como se eu pudesse criar um código próprio de existência.. da maneira como eu estabeleço a minha existência mesmo. Meu alfabeto, meu vocabulário. Disso vem a maneira como eu acho que as letras devem ocupar o espaço. E sou muito ligada a manufatura. Gosto de cozinhar o dia todo, faço feira orgânica, escrevo à mão. Gosto de usar as mãos como uma extensão do pensamento. Acho que essa é uma coisa que acompanhou todo o movimento civilizatório, né?”

E a pergunta que provavelmente surge pra você que tá lendo, é que entre tantas expressões de si, qual será a missão de Mana no mundo?



“Acredito que é promover o desenvolvimento autoral. Assim como o que faço é autoral. Criei um método há 12 anos onde escuto história de vida de mulheres. Dou um pedaço de arame de alumínio, bem molinho e fazemos uma roda. Elas começam indo pro centro da roda, uma a uma com um pedaço de papel e uma caneta. Nesse centro, elas escreverem uma síntese da historia de vida delas e com o arame, criam uma forma pra simbolizar essa historia. A partir disso, a mulher começa a assumir sua própria história e acredito que quando a gente assume nossa própria história, nossas alegrias, nossas dores, a síntese da nossa vida, é um ponto de partida pra autoralidade.”

Por esse trabalho intenso com o feminino, perguntei a Mana sua opinião sobre o papel de nós, mulheres privilegiadas, no empoderamento das mulheres periféricas.




“Gosto de falar que eu trabalho com mulheres. Roda de mulheres e processos democráticos. Desde mulheres em situações privilegiadas até as que moram em comunidades, que não são privilegiadas. Acredito que nós mulheres em geral, precisamos nos assumir cada vez mais autoras, o mundo precisa de mais mulheres autoras. As mulheres precisam assumir sua identidade com cada vez mais força, assumir sua história.”

Falando em mulheres que vivem sua autoralidade. O exemplo de Mana vem bem de perto, sua mãe, Rute Casoy. E o próximo livro da multi-criativa, Ritos do Nascer ao Parir, vai falar sobre a relação entre as duas. Mas o que será que há de único e intangível na relação entre mãe e filha?




“A maneira como a gente estabeleçe a nossa relação afetiva como um todo é muito pautada pela maneira como a gente se relaciona com a nossa mãe ou com quem é a nossa formadora do feminino. As vezes é uma avó ou até outra matriz feminina que a gente se espelha. Isso também reflete na maneira como nos relacionamos com quem amamos, com quem a gente escolhe pra casar, namorar. Nossos valores, o que a gente é, é muito influenciado por essa mãe."



"E esse livro conta um pouco da nossa história, nossa força. Somos 2 mulheres autoras. Minha mãe tem um instagram lindo, com pílulas filosóficas, se chama parto da palavra. Nossa autoralidade é muito complementar. A gente troca na escrita, na vida, toda essa relação com projetos sociais, rodas de mulheres... até minha caligrafia, vem dela. É literalmente uma matriz do que eu sou. E falo isso com muito orgulho, reverenciando a mulher que ela é. Dento da minha atualização com o feminino fazer um livro onde ela é, também,  a protagonista engrandece muito.
Tenho uma certa fascinação por tornar mulheres que por algum motivo da vida tiveram seu processo de autoralidade esmagado.Então pra mim, potencializar a autoralidade da minha mãe, é uma maneira de seguir esse caminho.”

Sobre “encontrar pessoas por dentro das pessoas”, nada como ouvir da própria autora o significado de um pensamento tão profundo e verdadeiro.



“Encontrar pessoas por dentro das pessoas é uma maneira, também, de não cristalizar o outro. A gente às vezes taxa o outro, sabe? É entender que todos os seres humanos estão prontos pra serem descobertos a todo o momento e devemos possibilitar esses encontros. Sou budista desde os 18 anos, então muito da minha poética vem da minha relação espiritual com a vida. Encontrar pessoas por dentro das pessoas também é isso de entender que dentro da gente tem muita gente. Que dentro do outro tem muita gente.”

Entre mulheres, pessoas, sentimentos, mundo. Não poderia deixar de perguntar a Mana sobre outra grande presença em sua vida: a Natureza. E a pergunta é: chegará o dia em que todos e, principalmente, todas, entenderemos que nós mesmas somos Natureza?



“Acho que esse entendimento que somos todos a própria natureza é um pensamento lindo. Somos cada um uma natureza própria. Acredito nisso totalmente. Além disso, preciso estar dentro da natureza. Eu moro no alto com Jeneci e é incrível. Todo dia vejo pelo menos 10 beija-flores, 20 borboletas, macacos, tucanos, quatis, formigas, insetos, caramujos, grilos, sapos, besouros inacreditáveis, ruídos lindos da floresta e isso me instiga muito porque estabelece uma relação muito íntima com o universo e comigo mesma. Acho que a natureza é uma maneira linda de relativizar o organismo, nosso sistema emocional. Compreender que toda ela funciona também com emoções, com tempo, matemática, horários. É lindo e muito intimo. Quando a gente se relaciona com a natureza, a gente fica mais íntimo da gente mesmo, sabe?”

E assim a gente deixa o pensamento fluir pra refletir sobre toda essa natureza, criação, que vem de dentro e se espalha pelo mundo, como uma energia vital. Como Mana faz.
 
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