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farm entrevista: sabrina fidalgo

18.09.17

 #sabrina fidalgo



Em busca de sua Africa ancestral a cineasta Sabrina Fidalgo encontrou uma Gana futurista, avançada culturalmente e socialmente em assuntos que ainda andam engatinhando por aqui. Em viagem pra apresentar seu filme Rainha no Festival CHALEWOTE em Acra, na capital do país, Sabrina foi recebida por uma juventude vibrante, poderosa e aberta, exorcizando o passado e celebrando um futuro que parece ser incrível.

Conversamos um pouco com ela sobre essa viagem e muitas outras, sobre o filme Rainha que anda rodando o mundo com uma imagem fresca e poética sobre carnaval e sobre a beleza, sobre buscas idealizadas e o que a gente encontra pelo caminho:

Como foi esse encontro com a sua ancestralidade?

Foi muito potente! E também acho que foi muito surpreendente no sentido de desmistificar um certo "romantismo" que temos com relação a nossa ligação com o continente africano. Quando eu cheguei em Acra, capital de Gana, e vi aquele mar de pessoas negras, foi um impacto. Porque o Brasil é multietnico, apesar de termos uma maioria negra. Porém, em espaços privilegiados como aeroportos, por exemplo, essa nossa pluraridade étnica desaparece. Então chegar em um lugar e ver um mar de pessoas negras retintas no aeroporto foi uma imagem nova pra mim. E só ao longo dos dias que passei em Gana percebi muitas outras coisas... Eu quando cheguei me senti muito em casa, muito a vontade, muito parte daquela sociedade. Mas acho que, mais do que isso, também tinha muito mais uma vontade minha de pertencimento do que qualquer outra coisa. Mas conforme os dias foram se passando vi que eu era vista como estrangeira por todos, onde quer que eu fosse. Todos sabiam que eu não era de lá, que eu era estrangeira, que eu não era africana... Foi interessante vivenciar isso e entender que, apesar da nossa ancestralidade, existem diferenças cruciais que nos separam. Não somos africanos, somos (afro)brasileiros e não é por fazermos partes de uma diáspora que podemos achar que somos de lá. Eu nunca pensei dessa maneira, na verdade, mas vejo que no Brasil muita gente vive essa fantasia com o "elo perdido" da ancestralidade africana. Foi interessante perceber isso.

O que mais te surpreendeu em Gana?

Me surpreendeu a vanguarda de lá. Eles são muito mais modernos do que a gente. Achei tudo muito afrofuturista, de verdade. Desde os "looks" dos jovens, passando por questões como gênero até o tipo de discussão que eles estão tendo dentro da sociedade no momento. O festival do qual participei, por exemplo, discutia temas como a questão "transracial", que nós sequer conhecemos ainda. Fui procurar no Gooogle definições sobre o tema e não achei nada em português. Enquanto estamos aqui ainda discutindo se uma mulher trans pode ser inserida em questões feministas, lá isso é visto como algo naturalizado pela juventude, pelo menos. E da mesma forma como eles acham natural a transição de um gênero pra outro eles também aceitam a ideia de que uma pessoa pode transitar de uma raça ou etnia pra outra. Isso foi uma grande surpresa! E o mais curioso foi ver como os jovens estão abertos pra essas discussões, indo de encontro a muitos discursos mais radicais de movimentos negros diaspóricos como o americano e o brasileiro. Eles interpretam o racismo sob um outro viés e estão bem mais imersos num pensamento mais livre e acolhedor.




Qual sua impressão mais forte sobre a juventude de lá?

Eu achei a juventude de lá muito mais moderna e mais antenada com o mundo. Achei eles mais livres e desprendidos de normas "ocidentalizadas", mas sem menosprezar as raízes. Achei a juventude de lá muito dinâmica e aberta ao mundo, disposta a se inserir num panorama cosmopolita e global de vanguarda mesmo. Eles são muito mais abertos a experimentações em vários campos: filosófico, artístico, social...

O que eles tem pra nos ensinar?

Acho que o pensamento livre. Nós precisamos descolonizar nossas mentes com urgência. Sofremos a rebarba da colonização portuguesa/européia e ainda vivemos sob uma neo-colonização cultural dos Estados Unidos. A gente não se da valor enquanto um povo e sua cultura, sabe? A gente não cultiva a nossa autenticidade, que é o que temos de melhor. Sempre quando somos brasileiramente autenticos, somos melhores. E acho que eles, justamente por eles terem sofrido um processo de descolonização mais tardio e mais brutal do que o nosso, cultivam melhor a autenticidade deles e de uma forma mais moderna, futurista. 




Quais foram as reações ao filme?

Eles entenderam como um filme de "terror", algo meio macabro. Foi muito curioso me deparar com essas reações, porque, em principio, nunca imaginei que o filme pudesse ser visto dessa maneira. Sempre vi o filme como um drama de atmosfera opressora, um carnaval soturno e melancólico, mas jamais como um "filme de terror"! Em "Rainha" eu falo muito sobre essa obsessão da protagonista por um padrão de beleza ideal pra se ganhar um concurso de beleza, padrão esse baseado em imposições de uma sociedade machista e consumista. Só que lá eles não lidam com essas questões dessa maneira, a beleza lá é muito mais relativizada, subjetivada...Então foi muito surpreendente ver que eles interpretaram essa opressão estética ocidental e todos os signos em relacionados a isso que usei no filme como algo "assombroso"...

Como surgiu a ideia do roteiro?

Eu já tinha a cena final inteira na minha cabeça há anos. Era uma cena especifica de uma rainha da bateria ao som de "Lei No, Lei Sta Ballando" a versão em italiano de Chico Buarque e Ennio Morricone pra "Ela Desatinou". Sempre que eu ouvia essa musica eu pensava nessa cena, como se fosse um videoclipe, e sempre tive vontade de filmar essa cena, só não sabia em que contexto. Dai, quando pensei em escrever o roteiro de um novo curta lembrei disso e falei : "vou criar uma historia pra essa cena imaginária e ela será a ultima cena do filme". Então, quando comecei a criar o roteiro, eu já tinha um final. Criei uma historia pra chegar até ali. E já tinha a figura da "rainha da bateria" e eu adoro carnaval. Amo a estética, amo tudo! E acho que o nosso carnaval é muito pouco explorado na nossa cinematografia, no geral. Dai, conversando com um grande amigo fotografo de Berlim, Joe Kake, meu veio a vontade de mostrar um carnaval preto e branco, glamuroso, atemporal, melancólico, quase documental também. E essa ideia me remeteu a alguns trabalhos fotográficos com corpos negros em P&B de artistas como Pierre Verger e Athur Omar. Desenvolvi a historia me inspirando também em alguns casos públicos de meninas consideradas "padrão" que estavam sofrendo violentos bullyngs em escolas públicas de São Paulo por "gang de meninas" movidas pela inveja e competição, convidei a Julia Zakia, fotógrafa e diretora de São Paulo pra fazer a foto e assim foi.




Você acha que essa busca desmedida por um ideal de beleza irreal é alimentada por uma certa disputa feminina?

Acho que é alimentada por uma sociedade calcada em valores frágeis e falidos. Uma sociedade extremamente capitalista e superficial, enfraquecida pela falta de cultivo de um pensamento crítico e, sobretudo, pela falta crônica de investimentos em educação. Por conta disso tudo fica muito mais fácil manipular cabeças dizendo como mulheres e meninas devem ser ou deixar de ser fisicamente em prol apenas de um consumo desenfreado. A disputa feminina é parte dessa engrenagem, especialmente em se tratando de uma nação machista e opressora como a nossa. 


Existe disputa entre mulheres mesmo ou é de alguma forma mais uma construção social criada pra separar a gente?

Existe disputa entre seres humanos, independente de gênero, especialmente numa sociedade capitalista, como falei acima. A forma como essa disputa entre mulheres é alimentada é que é o grande problema. Porque ok se incentivassem uma disputa visando o intelecto, as subjetividades, a inteligência e o talento, mas a nossa sociedade machista incentiva a disputa em lugares muito rasteiros como padrões de beleza e status social. As mulheres são niveladas por baixo, sabe? E isso é muito triste... E como não temos uma cultura que incentiva o intelecto, as mulheres acabam se deixando manipular por esses padrões superficiais estabelecidos. É tudo uma construção social que temos que desconstruir pedra por pedra, agora, com advento dessa primavera feminista. Vai levar um bom tempo, mas tenho alguma esperança.




Qual a trajetória do curta agora, onde ver o filme?

O curta estreou no Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro - Curta Cinema em novembro passado e ganhou o prêmio de melhor filme do júri popular. Além disso ganhamos mais quatro prêmios (melhor atriz, ator co-adjuvante, som e figurino) no Festival "Ver e Fazer Filmes" em Cataguases, cidade onde rodamos o filme por conta do edital da Usina Criativa de Cinema do Polo Audiovisual da Zona da Mata de Minas Gerais, do qual fui escolhida como diretora convidada. De lá pra cá já passamos por mais de 30 festivais e mostras, o filme foi exibido em Gana, Bolivia e agora, no mês de setembro, terá exibições em festivais no México, Argentina, Brasil e Paraguai. Tem sido muito bacana a trajetória e ainda não chegamos na metade. Meu desejo é que o filme seja exibido no máximo de lugares possíveis

Pra acompanhar a agenda de exibições é só seguir a página no Facebook e Instagram. E a nossa dica não podia ser outra, não perca! 

 
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