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#forçafeminina: poesia com elos

22.03.18

 #força feminina #fotografia #poesia com elos



O corpo é uma extensão de nós mesmos e através dele sentimos, falamos, dançamos, agimos e somos. É essencial nunca esquecer que o nosso corpo é nosso. Vai além do sensual, sexual, além do que o outro vê. Através do corpo colocamos pra fora o que vem de dentro, o que a alma pede e precisa. Nos relacionamos com outros corpos, com o ambiente, com a vida e com o tempo.



A partir dessa reflexão sobre a imagem do corpo nu e só, principalmente o feminino, tão objetificado, a fotógrafa Pamela Facco criou a série de fotografias “Poesia com Elos” que pra ela é “O corpo como verso em um diálogo orgânico com a alma”.





O projeto começou como Poesia com Elas, uma forma de artística de explor a nudez feminina como uma ferramenta de autoconhecimento, empoderamento da mulher e quebra do círculo vicioso no qual o corpo feminino sempre acaba como uma mercadoria sexual para o universo masculino.

“Os ensaios aconteciam em grupo e a energia e troca positiva que acontecia entre todas nos era absurda. Ensaio pós ensaio o projeto foi ganhando uma identidade mais forte e foi se descolando das poses habituais. Entendi que a alma é orgânica e que o que busco é um verso. Que cada modelo tem uma força e que essa força se apresenta numa forma própria e única. Ela surge no meio da imersão do ensaio, ela salta aos meus olhos como num passe de mágica, num clic (duplamente)”, conta ela em seu Instagram.



A ideia transbordou e o Poesia com elas chegou para eles, para todos, e em união desses laços nasceu o POESIA COM ELOS. A gente bateu um papo com a Pamela pra conhecer melhor as inspirações por trás dessa força feminina e poética, ó.

Como começou sua história com a fotografia?

Ser fotógrafa nunca foi um objetivo de vida, um sonho. Tudo aconteceu como a fluidez da água de um rio que corre num sentido único, sem muita escolha ou a possibilidade de voltar atrás.
Eu sou extremamente sensível sobre as dores do mundo e aprendi a transformar em arte o tanto que sentia. Comecei ainda adolescente, ao colocar minhas vivências em ilustração e pintura, depois para a escrita. Logo depois, comecei a faculdade de design gráfico e uma inquietação me levou a viajar muito e também a procurar trabalhos sociais. Para registrar essas experiências, cai no mundo da fotografia. E foi através dela que amadureci e me reconheci como um ser possuidor de voz por meio do silêncio ambíguo de uma imagem. É uma história da qual me orgulho muito porque sinto que através das minhas criações fotográficas não só encontrei minha profissão, como nasci como mulher e artista, ao perceber que minha fala e alma tinha um espaço no mundo.



Ultimamente a imagem do corpo nu é um tema ainda bastante discutido. Como surgiu seu interesse por fotografar as pessoas nessa situação, ao mesmo tempo, simples e única?

Você já reparou que a maioria do material sobre o corpo da mulher é produzido por homens e para homens? Percebia que a maioria do material sobre o corpo da mulher era produzido por homens e para homens, então fiquei motivada a dar para a mulher o protagonismo de sua própria imagem: o corpo da mulher registrado pela lente de uma fotógrafa mulher e tendo como público final principalmente o feminino. Queria atropelar a ideia do nu como algo apenas sensual, sexual e que serve para agradar ao homem. É trabalho plástico sim, mas é ativismo feminista também. Os ensaios são coletivos para derrubar esse tabu do nu como algo envergonhado. É uma libertação, uma possibilidade de se ver despido dos preconceitos e do peso do julgamento constante de ser mulher em uma sociedade tão machista e aprisionadora. Em grupo, existe um desligamento do ego, um rompimento das inseguranças pessoais em troca de pertencer a um processo maior, uma luta coletiva pela essência feminina na qual todas as mulheres estão de corpo e alma desconstruindo-se mutuamente e apoiando-se umas nas outras. No final do processo as mulheres saem da minha sala com o dobro de tamanho, tudo por causa da troca. O coletivo de mulher é amor.



Ao fotografar mulheres e seus corpos você empodera cada uma delas, dando força e auto-estima, né? E a sua força femina, de onde vem?

Acho que a minha força feminina vem por obrigação. Parece estranho, mas não tem muita saída, ou se luta ou te enterram. Sendo uma artista mulher você passa por muitos silenciamentos, quanto maior a ruptura, maior a censura. Recentemente, abri meu trabalho de nus femininos para ensaios masculinos, para mostrar um olhar mais sensível sobre a dureza do corpo do homem. Assim que publiquei minha primeira foto, fui denunciada e tive meu instagram banido do sistema. Tive que recomeçar e contei com a ajuda de muitos amigos e conhecidos que abraçaram a causa, mas também tive a noção do tamanho da hipocrisia da nossa sociedade, do machismo cotidiano. A nudez feminina foi tão objetificada pelo olhar masculino, que pode ser vista em qualquer lugar, já a masculina é um choque, tem que ser banida. Foi uma censura que revela diversas questões: a visão do que pode ou não ditada pelos preconceitos masculinos, o medo em colocar o homem em um lugar mais poético, exposto, e o ataque pessoal por ser uma fotógrafa mulher que decide virar o jogo de alguma forma, afinal existem diversas galerias de nudez de fotógrafos homens que não são denunciadas. Então minha força feminina vem para derrubar absurdos como esse, mostrar que tenho o que expor e ainda para ajudar mais mulheres a encontrarem sua força e colocarem sua voz no mundo, afinal se enfrento isso sendo uma mulher branca de classe média, como fica o lugar de fala de uma mulher negra e pobre no Brasil?



A reflexão é mais do que atual e necessária. E a gente convida você a pensar junto e principalmente, agir junto. Pela nossa liberdade de ser o que somos, ter o corpo que temos e garantir essa liberdade ao outro. Vamos juntas e juntos?


 
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