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o chamado ancestral

22.04.17

 #mayara boaretto #parto natural



Às vezes sonho que seguro bebês recém nascidos, dentro de uma floresta, ao som de cânticos e tambores. Sonho que estou novamente conectada com o meu lado selvagem e, quando sonho, me sinto mais viva do que nunca. Desses sonhos vem uma vontade enorme de ser parteira, de facilitar e abençoar o nascimento de uma criança, de me reconectar com o sagrado começo da vida.

E essa vontade já me levou à casa de duas parteiras, uma na Chapada dos Veadeiros e outra em uma cidadezinha guatemalteca, onde escutei bem atenta uma porção de histórias. E, por fim, me conduziu ao parque Ibirapuera, pra entrevistar a Mayara Boaretto. Com ela, descobri: além de mim, muitas outras meninas também ouvem o mesmo chamado. 
 

Mayara Boaretto

A Mayara é aprendiz de parteira na tradiçãos, estudante de Obstetrícia pela EACH/USP e é criadora do projeto Mulheres da Terra, que busca dar visibilidade a histórias de parteiras tradicionais de diversas partes do mundo (e que vai virar filme!). Aos 17 ela decidiu ser parteira, mas antes de entrar na Universidade, colocou a mochila nas costas e saiu Brasil afora em busca de autoconhecimento e aprendizagem...


Dona Francisquinha

May, da onde vem o seu interesse pelo parto tradicional?
Eu sempre quis trabalhar na área da saúde, mas o mosquitinho da paixão pelo parto me picou aqui em São Paulo, ainda adolescente, quando uma amiga me contou que havia uma parteira da Amazônia na cidade e eu corri pra vê-la. Ao ouvir Dona Francisquinha falar, algo mexeu aqui dentro do peito e senti uma sensação de preenchimento muito grande. Depois disso, não conseguia pensar em outra coisa além de parto e de parteiras tradicionais.

O Brasil é o campeão mundial de cesariana e em alguns hospitais a taxa chega a 90%, embora segundo a Organização Mundial da Saúde a taxa ideal seria de 10% a 15%, exclusiva pra gestações de risco ou complicações no parto. Não estou menosprezando a cesária, ela salva muitas vidas, mas a gente esquece que ela (da forma como que é feita hoje) existe há pouco tempo e antes disso todo ser humano nascia de parto normal. A minha mãe, por exemplo, nasceu em casa, pelas mãos de uma parteira tradicional chamada Dona Belmira, assim como seus 10 irmãos. A Dona Belmira era raizeira, e andava sempre com uma maletinha cheia de vidrinhos de remédio. Já eu nasci de cesárea em um hospital e um dia comecei a me perguntar: o que mudou de uma geração pra outra? Decidi pesquisar e coloquei o pé na estrada.
 

Me conta mais sobre a sua viagem?
Percorri o nordeste brasileiro em busca de parteiras. Ia batendo de porta em porta e muitas vezes as pessoas diziam que não havia mais parteiras, então eu perguntava quem fazia os partos antigamente e a resposta era certeira: “Tem a fulana, que já pegou muito menino. Mulher muito generosa.” e me passavam o endereço. No começo do papo as parteiras diziam que pouco sabiam, e conforme a gente ia conversando e eu ia mostrando o quanto me interessava pelo trabalho delas, elas iam se sentindo importantes e se empoderando do que sabiam. Algo muito bonito de se ver.

Visitei muitas parteiras pelo Brasil, sempre fazendo as mesmas perguntas, e mais tarde ao ouvir as gravações tive um insight: havia algo em comum entre todas aquelas mulheres. Uma era quilombola, outra era caiçara e outra, indígena, e apesar de terem culturas completamente diferentes e nunca terem lido um livro sequer na vida, todas elas falavam a mesma linguagem e carregavam uma sabedoria ancestral. Quando mais tarde viajei pela Índia, Nepal, Indonésia e Tailândia, pude sentir a mesma conexão entre as parteiras. Daí me veio a vontade de fazer um filme baseado nos pontos de conexão entre elas, um filme que pudesse preservar parte desse conhecimento.
 

E qual a importância desses saberes serem preservados?
Antigamente os estudos eram privilégio masculino, e as mulheres não sabiam ler nem escrever. Seus saberes eram passados oralmente, nas vivências do dia-a-dia, e o conhecimento milenar que as parteiras carregam vem sendo transmitido assim até hoje. Porém nos deparamos com um momento crítico: devido à globalização e à hospitalização dos partos, as parteiras tradicionais estão perdendo espaço de atuação e ficando sem aprendizes. Os jovens nas aldeias e comunidades já não tem mais tanto interesse em aprender o ofício e elas não tem como passar o conhecimento adiante. Observando esse cenário, comecei a me perguntar: pra onde vai esse saber ancestral quando essas mulheres maravilhosas, verdadeiras bibliotecas vivas, se forem? Desse questionamento brotou o desejo de documentar e preservar esse conhecimento, compartilhando essas histórias com o mundo.


A sociedade patriarcal sempre temeu a força das mulheres. Eu gosto de fazer uma metáfora dos saberes das parteiras como árvores que o patriarcado tentou derrubar diversas vezes. Na Inquisição, por exemplo, num período chamado de “caça às bruxas”,  80% das pessoas perseguidas e queimadas eram mulheres: parteiras, curandeiras e raizeiras. Mas essas árvores tinham raízes bem fortes e deixaram sementes. Por meio das sementes, o conhecimento continuou sendo repassado. 

Acredito que nós, meninas de centros urbanos que valorizam os saberes tradicionais, somos parte dessas novas sementes. Está no nosso sangue, afinal: em algum lugar da nossa linhagem as nossas antepassadas ajudaram outras mulheres a parir. Um amigo chamado Oberom, me falou uma vez uma frase que eu nunca esqueço: "Dentro de cada semente já existe o potencial de ser árvore, e dentro de cada árvore existe o potencial de milhares de outras sementes". Acredito que compartilhando essas histórias e saberes com outras pessoas contribuo na disseminação dessas sementes.


Dona Zefa da Guia

Como as parteiras estão presentes no filme?
Mapeei quatro pontos de conexão entre as parteiras ao redor do mundo e escolhi, como personagens pro documentário, quatro parteiras brasileiras que representam muito bem esses pontos. O primeiro deles é a espiritualidade. Você pode ir pra regiões na Amazônia, na Tailândia ou na Índia e verá que, apesar dos diferentes rituais, o nascimento é sempre considerado sagrado. As orações, os cânticos e as práticas mudam conforme a tradição, mas o ímpeto não muda e está em todas as culturas tradicionais. No filme, esse primeiro ponto é representado pela Dona Zefa da Guia, que é parteira e benzedeira quilombola do quilombo Serra da Guia, no sertão de Sergipe. Ela começou a rezar aos sete anos e aos onze fez o seu primeiro parto. Hoje pessoas de vários cantos do nordeste vão ao seu encontro em busca de auxílio espiritual, conselhos e cura.


Maria d'Ajuda

O segundo ponto é a relação com a Terra e com as plantas medicinais, representado pela Maria d’Ajuda, também conhecida como Jaçanã, uma senhora de 1 metro e 40: parteira, raizeira e a primeira pajé mulher da etnia Pataxó. Dona d’Ajuda é a pessoa mais doce que eu já vi na vida. Ela tem um jardim com mais de 20 tipos de árvores frutíferas e uma agrofloresta de plantas medicinais, que é a coisa mais linda. 

E como as plantas medicinais são usadas no acompanhamento do parto? 
As parteiras, curandeiras e raizeiras são grandes conhecedoras das plantas medicinais e com elas preparam óleos de massagem, remédios caseiros, chás, tinturas e pomadas. Muitas usam chás quentes, por exemplo, que aceleram o metabolismo do corpo e ajudam no parto, como os chás de canela, de gengibre e de pimenta do reino. Com seu jeitinho simples de ser, ela me contou que quando a mulher está com dificuldade de parir, ela dá banho de flores com pétalas abertas na barriga da grávida pra abrir o útero, e pede pra mulher imaginar o útero se abrindo feito flor.

Jaçanã fez o seu primeiro remédio aos 7 anos quando a mãe - que também era raizeira - adoeceu. Nesse momento ela foi pro mato, se ajoelhou e pediu pra Deus mostrar qual era a planta que faria o remédio certo pra sua mãe. Desde então, nunca mais parou. Certa vez ela me disse: "minha filha, as plantas que servem pra fazer remédio brilham na minha vista. Eu não tenho leitura, mas eu sei ler a terra, as plantas medicinais...".


Suely Carvalho

O terceiro ponto é a transmissão de saberes, representado pela minha madrinha, Suely Carvalho, parteira tradicional e fundadora da ONG Cais do Parto. As avós de Suely eram parteiras no Paraná, e mesmo ela tendo estudado enfermagem, encontrou nos saberes tradicionais a forma de dar continuidade ao legado de suas avós. Ela tem um trabalho muito importante de capacitar parteiras tradicionais no Brasil e ensinar esses saberes às mais jovens, mantendo assim o conhecimento vivo.


Mamãe Zezé
 
O quarto ponto é o aspecto social. As parteiras que conheci vivem em sua maioria afastadas dos centro urbanos, em aldeias indígenas, vilarejos caiçaras, comunidades quilombolas ou na periferias, e em muitos desses lugares as políticas de saúde pública ainda não chegaram e por isso elas têm uma importância social enorme. Seus saberes e principalmente a dedicação com que cuidam das pessoas as tornam líderes e agentes de transformação social. Pra representar esse ponto, escolhi uma figuraça, a Mamãe Zezé, de uma comunidade na periferia rural de Caruaru, agreste de Pernambuco. Parteira há 40 anos, Zezé transformou sua própria casa em uma maternidade, a “Casa de Parto Mamãe Zezé”, e atende gratuitamente todas as mulheres da comunidade no pré-natal, parto e pós-parto. Zezé cuida da comunidade como um todo e é também agente de saúde comunitária. Com seus próprios recursos, construiu dois cômodos extras em sua casa, transformada em um Posto de Saúde improvisado, que atende cerca de 3 mil pessoas da comunidade. 

Segundo ela: “Nessa comunidade eu sou médica, delegada, advogada, parteira, psicóloga, geriatra e assistente social. Eu sou tudo, porque na hora que você precisa, você tem que usar aquilo que sabe”. Logo no começo da sua trajetória, quando a casa ainda não tinha sido reformada, Mamãe Zezé vivia expulsando o marido da cama: "vai embora homi, que está chegando mulher pra parir". Recentemente ela se candidatou à vereadora, gastou apenas 21 reais na sua campanha e foi eleita. "Mas zezé, como você faz pra ser vereadora e parteira ao mesmo tempo?" "Olha minha filha, se tem mulher aqui pra ganhar neném eu não quero nem saber: não vou trabalhar não, as mulheres são a minha prioridade“, ela conta.


Me conta como foi o seu primeiro parto?
Foi em Fortaleza, quando acompanhava Dona Maria, antiga parteira, no hospital onde ela trabalhava como doula voluntária. Chegando lá havia uma mulher em trabalho de parto, a TV estava ligada passando Datena e a enfermeira não parava de fazer perguntas inconvenientes pra moça, que vinha de um contexto muito vulnerável e tinha entrado em trabalho de parto antes da hora, nervosa por ouvir um tiroteio na comunidade. A sorte foi que a enfermeira precisava sair mais cedo e deixou essa mulher comigo. Desliguei a TV, segurei na mão dela, olhei nos olhos e fui tentando acalmá-la. Eu não sabia muito sobre parto, então dei o que tinha: afeto, atenção e algumas massagens também (risos). Quando o bebê nasceu e fomos nos despedir, ela me perguntou se eu tinha alguma religião e se eu podia batizar o recém-nascido Icaro David.


Um super obrigada especial à Isadora Carneiro, fotógrafa e filmmaker do projeto Mulheres da Terra, Niels Kloumberg e Mariana Kuroyamana, e ao Pedro Vargas, meu mano, pelas fotos do dia da entrevista.

 

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