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O que que o Baiana tem?

07.12.17

 #baianasystem #roberto barreto



Os caras tão explodindo o cenário da música independente. Os shows lotam, a galera pira e a gente se pergunta - o que que o baiana tem? A verdade é que eles sabem misturar ritmo como ninguém, e essa consciência // sonora e histórica // na prática, faz da banda já um marco da nossa geração.

É samba do recôncavo, é samba reggae, é pagode baiano, é a África e o Brasil juntins. 
Vem pertinho, BaianaSystem, que a gente quer mais! 



Eles tocam no Circo Voador amanhã, sexta-feira (8), e a gente aproveitou pra trocar uma ideia com o Roberto Barreto, que trouxe a guitarra baiana, criação dos eternos Dodô e Osmar na década de 40, pra banda com outros contextos. Falamos de renovação do diálogo musical, do protesto do sorriso - de Russo Passapusso - de política, da origem do nome 'BaianaSystem' e da Bahia. E de outras coisas nas entrelinhas. 



- O Baiana tem uma mistura de sons, de latinidade. Nossa percussa brasileira, música eletrônica, um vocal vivíssimo. A banda é um acontecimento. Como nasceu o baiana e essa mistura fonética? 
O Baiana surge de uma ideia de experimentar coisas, principalmente com a ideia de experimentar a guitarra baiana com o sound system, de levar bases e usar isso com a referência da guitarra baiana. A Bahia é uma referência inteira. Dentro disso, as formas também de cantar: entre o cantar e a reposta do público traz já uma mistura, o que é muito vivo no sound system. Se aquilo chegou e tocou, o público reage. A gente vem construindo o que vem sendo feito a partir desses pontos. O Juninho, produtor guitarrista, também na construção, como postura, como forma de tocar. O Russo na maneira de cantar, nessa estética... 

- Você falou da reação do público. Como você enxerga esse comportamento, essa resposta? É catártico! 
Nosso show é muito aberto. A gente tem ali um roteiro, mas isso depende muito da resposta do publico e isso leva Russo a brincar com uma melodia, e brincar com público e a gente muda o repertório no meio do show, ali no ao vivo. Nesse sentido, é muito vivo e depende muito do público pra isso. O show tem mudado ainda mais com a gente circulando pelo Brasil. Temos percebido aonde podemos ficar mais pesados, aonde aliviamos... 

- Então... é zero medo do erro, né? 
Tem a ver com o Sound System não ter medo do erro e aí tá a graça. Tirar a tensão do erro. A gente já ensaiou muito e já criamos códigos que nos permitem brincar... Claro que ainda ensaiamos, mas essa experimentação existe!



- Vocês têm um discurso forte nas músicas. A música é política. A música preta é política. A diversidade é política. E focar na música como um não produto também é político. Isso faz sentido pra você?
Sim. Principalmente no momento em que a gente tá vivendo, não tem como a gente não ser político em todos os sentidos. Isso diz como a gente vai falar sobre dinheiro, sobre respeito entre as pessoas, sobre lei, sobre como a gente vai tocar nas rádios.... O mundo tá essencialmente político, não nesse ponto de vista clássico, mas no sentido maior. No que diz respeito a ser brasileiro. Há política na relação dos músicos com os contratantes. Na relação entre as pessoas, com a tecnologia. Ser político é poder falar da gente mesmo. Das nossas relações. Do nosso cotidiano. É no meio de um carnaval, que tem todo um padrãozinho, poder levantar bandeiras, falar, questionar. 

- É bonito isso. Ouvir isso. E o som de vocês é mega dançante. Fala-se de política em movimento. Literalmente em movimento. Um corpo dançante também é político...
O corpo dançante também é político. O funk é político. Ele traz uma liberdade. Uma postura. Uma confiança pra quem dança, pra quem toca e pra quem consome que em si é um protesto. Em alguns momentos você precisa ser mais direto... A gente tá vivendo num mundo muito tenso e se você poder dançar e ainda entender que você pode mandar um "porra, não enche!" pra um cara, você consegue tudo. Você consegue celebrar, extravasar, pensar e provocar. Enquanto isso, Russo fala muito sobre o protesto do sorriso. Quando a polícia vinha bater no público, sem a menor necessidade, a ideia era: sorria na cara dela. Nos shows acontecem isso, nos momentos mais fortes, de dançar, vc consegue emergir uma raiva e aquela raiva vira um protesto e aquele protesto vira uma dança.  

- E como é o lance com a guitarra baiana? Rolou um resgate a essa tradicionalidade?
Olhe, quando a gente fala em resgate, parece nostálgico. É meu primeiro instrumento e tenho uma identidade em cima disso, não só ligada ao carnaval, mas no geral. Tem uma estética de muita brasilidade, ligada ao chorinho, ao frevo. Quando você traz isso pra uma música mais contemporânea, usa como um instrumento e contextualiza isso, isso traz uma tensão e, nesse sentimento, é mais uma das coisas que a gente tem como uma pesquisa e tem uma importância. Tentamos fazer com que isso dialogue. 
 

- A parceria com a Titica, cantora angolona, rolou como?
Dentro disso, da pesquisa, a gente já via muita coisa de Angola. Nosso instrumental era referenciado pela música angolona também. Quando houve a oportunidade de tocarmos no Rock in Rio, pensamos logo na Titica. Russo viabilizou as conversas, mostrou o nosso som... 

// O Roberto produz um programa chamado “Rádio África”, na Educadora FM. Pra ouvir, clica aqui!

- Como foi a escolha do nome de vocês? Ter referência à Bahia no nome já é lindo!
Sim! Veio das guitarra que comecei pesquisando com o sound system, e do SS que Russo cantava no coletivo MiniStereo Público. É mais ou menos o baiana da guitarra e o system do sound (risos). E a banda foi nascendo também com o Felipe, que cuida da identidade visual, parte inseparável da banda! Nossas estampas com referência aos blocos afros eram projetadas nos shows e o Bahia é tudo isso: imagem, som e experimentação. 

- Isso tudo a gente sente nos shows, nas músicas, nos clipes... E impossível não comentar: o carnaval desse ano foi um marco não só na história de vocês, como no carnaval da Bahia... 
É... Já tocávamos no carnaval da Bahia e temos essas duas agendas certas no ano: tocar no carnaval e tocar nos festivais de fora do país. Na nossa primeira experiência pra China, fizemos show com o Ilê Ayê, numa feira internacional que trazia coisas de cada país. Há 4 anos, fizemos o Navio Piara, que é um trio menor e isso é fora do mercado! Não é compra de abadá, não é atração. A atração ali era todo mundo. Éramos do carnaval do Pelourinho... Acho que isso foi o que chamou a atenção, ver aquela galera toda ali num esquema diferente, protestando também...



- Foi lindo. E falando nisso, amanhã tem Circo Voador, show esgotadíssimo há semanas. Coração tá batendo forte? 
Muito! A gente já tinha tocado em lugares menores, no Oi Futuro. Depois num show maior no Vivo Rio e aí depois foi crescendo, como o RIR. Agora pensamos que conseguimos nos comunicar... Essa coisa de gostar de carnaval, de rua, que tem muito a ver com Salvador! O Rio é isso também. As pessoas conseguem identificar isso. Nossa! 

- Tem um Rio baiano sim... E dicas pra quem tá indo à Bahia e quer curtir por lá. Sabe aquele passeio que nãodápradeixardefazer
Ah! Rio Vermelho... Porto da Barra, que tá voltando a ter uma aura de pessoas circulando e é o melhor banho de mar do Brasil! E, óbvio: a Igreja do Bonfim, que você já tá na Cidade Baixa!

- Amei o Santo Antônio. Meio Santa Teresa (bairro do Rio de Janeiro), né?
Nossa! É bem isso mesmo! Pode incluir aí também na lista. Inclua Santo Antônio. 

Santo Antônio incluído com as devidas atualizações: BaianaSystem é um abusrdo cênico, sonoro, estético, musical. É um movimento cultural pulsado por Russo PassapussoRoberto BarretoSekoBass e Filipe Cartaxo que pesquisam e, mais do que isso, vivenciam a música num equilíbrio orgânico entre presente, passado e futuro. O desdobramento disso é uma experiência. É coisa de sentir dentro. É catarse pura. 



Amanhã o Circo abre as asas. E a gente vai voar junto.
Com dendê e com afeto. E asé. 

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