em 

TODO O SITE  

pras bandas de cá

17.05.17

 #alagoas #maceió #morfina #quiçaça #taynara pretto #yo soy toño



Eu acho que nunca, nunquinha, conheci alguém que não gostasse de música. E ainda bem, né? Porque, não sei como funciona com vocês, mas música pra mim é tipo combustível. Eu preciso conhecer mais, ouvir mais, ouvir sempre. E, toda vez que eu chego em algum lugar novo, procuro logo saber mais sobre sua música.

A música tem um poder incrível de unir pessoas legais e, talvez por Maceió ser uma grande cidade pequena, quem circula pelos eventos da cena musical daqui acaba conhecendo com facilidade quem faz parte disso tudo. Foi assim, circulando, que eu acabei conhecendo as três bandas que tão nesse post: Yo SoyToño, Morfina e Quiçaça.

Ah! E elas estão na playlist Sotaques no Spotify, viu? Vem ouvir


YoSoyToño é o projeto solo de Antônio Oiticica, que nasceu no Rio mas tem alma alagoana, já que vive por aqui desde criança. Com um som mais indie/folk (bem diferente do estilo da Dof Láfá, banda da qual ele também é vocalista), YoSoyToño é sua versão mais minimalista e subjetiva. Sempre tranquilo e com um violão embaixo do braço, quando Toño toca nos convida a entrar “Na Sala” (nome da série que ele lançou em 2015, depois de uma temporada em São Paulo) e ficar de boa!

Formada pelos amigos Igor Peixoto e Reuel Albuquerque, a banda Morfina nasceu em 2015. Com forte influência do rock dos anos setenta, muitos samples eletrônicos e uma pegada lo-fi super bem feita, a banda - que tem seu nome inspirado na também alagoana Mopho, uma das maiores influências do duo - gravou seu primeiro álbum, Farta Evanescente, todo em casa.

Já a Quiçaça adicionou, com o seu “reggae rural”, o tempero do Agreste alagoano na nossa roda de prosa. Começando pelo nome, que vem de um tipo de vegetação tradicional do Sertão e do Agreste e que significa ‘mato rasteiro e espinhento; terra seca e estéril, de vegetação arbustiva, rala e baixa’, a Quiçaça traz, também no ritmo e nas letras, o DNA da sua terra, Arapiraca. Um presente bom pros ouvidos, a banda, que tem Ruan Melo, Rodrigo Cruz, Gleyson Matheus e Janu Leite juntos, canta uma realidade bem diferente, mesmo estando aqui do nosso lado (a 128 Km de Maceió).


De Novos Baianos a Beatles, Mamonas Assassinas a Chiquititas, passando por Alceu Valença e chegando ao unânime Los Hermanos, todos cresceram cercados de estímulos musicais. Não foi à toa que, em algum momento da vida, escolheram entrar nesse mundo.

Alagoas é um lugar cheio de coisas pra serem cantadas e fazer música por aqui é quase um ato de resistência (e persistência, com certeza). Como o estado é carente de leis de incentivo à cultura, muitas coisas só acontecem na base do “faça você mesmo”. Na verdade, dá pra dizer que a cena por aqui não é nem independente e, sim, interdependente, já que as bandas (e quem as compõem) precisam uma das outras pra fazer as coisas acontecerem.

“O que eu acho legal do faça-você-mesmo é que ele gera um campo plural pela liberdade que ele te permite. Você pode fazer um lance cheio de identidade, com a sua cara e que vai atender a um grupo específico de pessoas. A gente consegue atingir um nicho, a gente tá formando um público e isso é interessante. O faça-você-mesmo também permite que você se envolva em todas as etapas. Você tem que ser o seu próprio assessor, produtor, motorista, o cara que faz a gravação, o cara que passa o som...”, diz Toño, que também está à frente da Muquifo, produtora que traz bandas independentes de todo o Brasil pra Maceió.

Janu acha que existe uma linha muito tênue que separa o lado bom e ruim dessa realidade. “Concordo com o Toño quando ele diz que fazer parte de todo o processo é algo bom, mas também acho que muitas vezes a gente poderia aproveitar mais isso, sabe? Tornar isso uma troca maior e não uma competição, como rola às vezes. Tipo, um cara que sabe gravar ensina pra um que não sabe; um que tem experiência em produzir troca com outro que nunca produziu e por aí vai.”


Além da realidade do faça você mesmo, aqui em Maceió as bandas e os produtores ainda contam com um fator imprevisível: o público. É muito doido como em uma cidade que é tão carente de eventos, de certa forma, ainda tem gente que reclama da falta de coisas pra fazer e mesmo assim não é capaz de sair de casa pra conhecer ou conferir algum evento com artistas locais. Em Arapiraca, os meninos falaram que a coisa é diferente: por ser uma cidade com menos eventos, quando acontece alguma coisa todo mundo vai. Ainda bem!

Como em muitos outros lugares, uma super aliada da cena daqui é a internet. É por meio dela que a galera mostra o trabalho pra outros cantos do Brasil e do mundo. “A gente também tem que pensar que podemos ser maiores do que somos por aqui e jogar nosso trabalho na internet é uma forma de atingir outras pessoas minimamente. Seja por sair na lista de bons discos em algum site especializado, seja por aparecer na playlist da Farm; isso já é algo que faz o trabalho valer à pena!”, diz Igor.


Alagoas é berço musical de músicos incríveis: a gente tem Hermeto Pascoal, gênio e um dos principais nomes da chamada “universal music”, tem Wado e Mopho (as bandas alagoanas que tão no topo da lista dos nossos entrevistados), tem Djavan e mais um monte de gente massa que precisa aparecer e ser lembrado. E no cenário independente, acredito que é a primeira vez em anos que a gente tem bandas muito boas e bem produzidas - de todos os estilos - fazendo nome por aqui e aparecendo em outros estados do Brasil. Só isso já serve de combustível pra que tudo continue acontecendo, seguindo nesse caminho.

Afinal, inspiração pra criar é o que não falta por aqui. Ruan, vocalista da Quiçaça, mora na zona rural de Arapiraca e é de lá que sai a maioria das letras da banda. “É esse tipo de coisa que forma poeticamente a banda. A gente vai observando os personagens da cidade, ouvindo o que eles têm a dizer. Muitas letras são baseadas na linguagem dos comerciantes que vão passando de carroça, de cavalo. Às vezes é um vocabulário que nem a gente consegue identificar, aí surge meio que um trabalho de pesquisa mesmo, de procurar entender de onde vêm as expressões, o que elas querem dizer.”, conta.

Já Toño diz que “em Maceió, às vezes a gente vive muito na superfície, se acomoda naquela superficialidade, fala do que tá mais perto, do que tá sempre ali. Acho que a gente tem que aproveitar a riqueza e as diferenças da cidade e se permitir mergulhar”.


E o sotaque, gente? “O nosso sotaque diz quem a gente é, de onde a gente vem. É o nosso natural. Não adianta forçar falar de um jeito diferente na hora de fazer música porque acaba ficando artificial”, fala Reuel. E é isso mesmo, né?

Vale lembrar: nesse fim de semana o Toño toca com a Dof Lafá no Festival Mormaço, e a Quiçaça se apresenta no evento Um Pelo Outro #2. Não dá pra perder, né? 

 *Agradecimentos especiais ao querido Duda Bertho pelas fotos desse dia cheio de sorrisos.


TOPO

aperta o play

inativa