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traço com sotaque

22.06.17

 #herbert loureiro #sotaque de maceió



Todo mundo tem um amigo mega talentoso, daqueles que você fica vibrando a cada pequeno passo, que torce pra que muita gente conheça ele e o que ele faz. Pra mim, essa pessoa é o Herbert Loureiro, o Herbie! Lembrando agora, ele foi um dos primeiros amigos que eu fiz quando cheguei em Maceió e mesmo antes de conhecê-lo pessoalmente, já ouvia falar sobre suas ilustrações, o traço “tortinho” inconfundível e o humor peculiar que ele carregava no trabalho (e na vida). 

Eu sempre fico um pouco angustiada quando vou escrever sobre alguém que conheço e que gosto tanto. Mas gente incrível e talentosa a gente deve fazer questão de mostrar pro mundo, né? Então nos encontramos pra conversar e fotografar em um domingo bem atípico em Maceió. Num dia cinza, Herbie foi um ponto de cor no meio do bairro do Farol. Olha só!


Nem ele lembra direito quando começou a sua paixão por desenhar, diz que é uma coisa que acontece “desde sempre”. “Eu acho que é muito uma forma de me expressar e de poder comunicar coisas que eu não sei dizer verbalmente. É um jeito de mostrar quem eu sou, sem ter que me explicar pra ninguém”. Além de uma forma de expressão, Herbie conta que, quando criança, o desenho era também uma maneira de se proteger. “Maceió é uma cidade muito machista e sempre fui muito discriminado porque não jogava bola na escola. Adorava encher a ficha da biblioteca e ter que pegar uma nova, sabe? Eu ficava lá lendo e desenhando. Daí eu fui crescendo e o ato de desenhar foi uma forma tanto de expressão quanto de proteção. Eu pensava assim: o meu desenho não é o mais perfeito do mundo e eu nem quero que ele seja, na verdade. Daí eu vi que aquilo podia ser a minha qualidade e era como eu me sentia também. Eu acho que reflete muito quem eu sou e acho que descobri um jeito de falar sobre mim na forma de desenhar”.


Foi no colégio ainda que Herbie descobriu que podia trabalhar com o que mais gostava de fazer. Seu professor de redação, Tainan Costa - que também é poeta - viu os seus desenhos no caderno e falou: “Por que você não ilustra meu livro?”. Depois disso, um universo se abriu. “Mesmo estando em Maceió, eu vi que eu poderia usar o meu traço pra falar sobre diversas coisas e me comunicar com pessoas e marcas de um jeito muito individual”.

De Maceió, Herbie começou a fazer trabalhos incríveis. Assinou estampas pra marcas como Der Metropol e El Patio, coleção de tatuagens pra Le Petit Pirate, capa de discos (como o da musa Daniela Mercury), cartazes de shows (como da outra musa Gaby Amarantos), revistas, livros infantis, teve exposições individuais e mais um tantão de coisas. 


Por aqui ele abalou muito, mas aí, há dois anos e meio, Maceió ficou pequena demais pra ele e Herbie resolveu desembarcar em São Paulo pra explorar outras habilidades que carrega (como bordado, tapecaria, projeções, cerâmica e etc). Ele aiu de Maceió, mas nunca deixou - e nem quer - que ela saia dele. Uma das coisas que sempre me chamou atenção no seu trabalho foi o tanto de sotaque que ele insere nas ilustrações que faz. Seus trabalhos, frequentemente, trazem palavras ou expressões bem alagoanas: tem “bilôra”, “gota serena”, “pipoco”... Mostrar o seu sotaque e de onde vem, pra ele, é essencial.

“Alagoas é também um lugar com uma cultura gigantesca, é um dos estados que tem o maior número de folguedos e manifestações populares (inclusive seu TCC no curso de Jornalismo da Ufal foi uma cartilha ilustrada de todos os folguedos em atividade no estado) e daí eu resolvi incorporar. Eu vi que nascer aqui me tornava diferente e me dava coisas diferentes pra mostrar pro mundo. Eu falo de um jeito diferente, eu tenho um sotaque diferente, eu conheço coisas diferentes. Assim como todas as outras pessoas, cada pessoa tem uma vivência né? E eu gosto que as pessoas tenham uma surpresa quando veem meus desenhos, ou que achem estranho e, sei lá, “descubram” uma palavra nova. Muita gente nunca ouviu a expressão “bilôra” (que é o mesmo que passar mal). Acho que a palavra e o sotaque que eu coloco nos desenhos tem disso, de misturar uma tradição com uma individualidade e com coisas do mundo”.


Todos os seus trabalhos têm uma característica de humor e também uma paleta de cores muito vibrante. Segundo ele, é assim que vê Maceió. “Maceió é uma cidade muito violenta e muitas vezes é difícil de morar aqui mas, ao mesmo tempo, ela é muito vibrante, tem a natureza, o sol e isso traz uma coisa doida. São paralelos, né? Viver em Maceió é viver em um paralelo constante e acho que isso influencia muito no meu trabalho, independente de onde eu estiver”.


A nossa conversa foi durante a vinda de Herbie pro lançamento de Forró Pipoco (ó mais sotaque aí), coleção de São João de uma grande marca de decoração, assinada por ele e por outro alagoano, o arquiteto Rodrigo Ambrósio. Nesse dia, minha metade alagoana se encheu de orgulho por ver dois talentos do design daqui sendo devidamente reconhecidos. Pra Herbie, em Alagoas, as pessoas não se deixam abater pela falta, elas criam com a falta. “Eu vejo que o design em Alagoas é uma coisa tão genuína e quase ingênua também. Tipo, se você pensar na Ilha do Ferro como design, eles têm uma pureza e uma ingenuidade inédita e as pessoas são interessadas, coisa que deixa a gente feliz. Eu gosto muito, tenho orgulho e acho que o design aqui tem um olhar muito próprio. Tem uma coisa diferente, tem muito de raiz e eu sinto que vibra de uma forma diferente também. E a falta de recurso cria uma coisa especial nesse design que faz ele acontecer e, principalmente, que tem feito ele dar certo”.

Que bom, né? A gente sempre torce pra que nossas raízes e talentos brilhem muito por todos os cantos desse Brasilzão! 

(Agradecimentos mais que especiais ao super Duda Bertho que, mais uma vez, colaborou pra que tivéssemos fotos lindas por aqui)


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