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Um pouquinho da BEFW, por Lilyan Berlim

28.11.17

 #BEFW



Moderna, singela e despretensiosa, a BEFW foi um marco no cenário da Moda no Brasil. Fiquei muito emocionada porque, há uma década, no mestrado em Ciências Ambientais na UFF, apostei na hipótese de que o movimento por uma moda sustentável não era apenas modismo, mas uma grande tendência de fundo que chegaria a todos os mercados e consumidores. Foram as expectativas e percepções de jovens designers (entrevistei 640 designers) que, na época, apontaram os resultados: não era uma simples febre, era Global e irreversível - “precisávamos tornar todos os mercados mais sustentáveis, inclusive o mercado de Moda”, era isso que estava no coração dos designers, que também eram consumidores. Dez anos depois e eles estão todos aí no mercado fazendo o novo. A prova: a BEFW teve mais de cem marcas inscritas, de todo o país, desfiles, ativismo, diversidade, respeito, responsabilidade.

Um pouquinho da historia deste movimento: em 2003, em Paris, teve início uma feira que reuniu designers diferentes, marcas alternativas que trabalhavam com a ideia de Moda ecológica (eu estava lá e vi isso acontecer). Era o início do Ethical Fashion Show (EFS), a primeira e maior feira de moda ética global. Este conceito de feira se espalhou pelas capitais europeias gerando um grande fórum de compartilhamento de saberes, espaço de difusão dos produtos e práticas das novas marcas e, também, espaço de encontros de pessoas, manutenção e atualização do mercado. O mercado está mudando sim... não há dúvidas. Não se trata de marcas consolidadas x marcas novas, marcas alternativas x marcas tradicionais, marcas sustentáveis x marcas irresponsáveis, não é nada disso. Trata-se aqui de novas formas de se compreender o negócio da Moda - pois o que assistimos da década de 90 pra cá não foi bem Moda, mas um modelo de negócio, chamado Fast Fashion, que se instaurou e tornou a excludente, irresponsável e, sobretudo, uma parada estagnada que nada tem a ver com moda, um termo que se relaciona com atitude, empoderamento e libertação.



Na BEFW comprovei que as novas estratégias competitivas são disruptivas - anulam a concorrência chamando a todos para colaborar, diversificar, abrir, unir... Todos em torno da abundância e não da falta! Novos modelos de negócios para um novo consumidor. Vejo essa galera nova com um “que” de YSL, aquele ativismo criativo que o fez ser perseguido e demitido da grande Dior, onde trabalhava. Tem algo de MacQueen, de Margiella, de novidade e vanguarda. Na BEFW se debateu processos, práticas e conceitos, falou-se de novas economias e de inclusão, de regeneração e “ação”, de mitificar e desmitificar, de como ser simples e fazer bacana e, especialmente, de por quê tornaram a sustentabilidade algo tão mais complicado e caro do que ela é na essência.



Por lá circularam aquele povo maneiro e jovem que tá cansado de ser tratado como bobo, os millennials; passaram por lá crianças e também os maduros, que amam moda e que são da vibe do consumo consciente; ativistas que conspiram para um mundo melhor, a galera do Fashion Revolution (ator principal deste evento); divas de mais de 60 anos, trans... os invisíveis? Não! Os modernos. A vanguarda estava lá. Daqui a dez anos espero estar aqui para ver o amadurecimento destas marcas lindas. Prevejo que as nossas grandes marcas estarão lá também, fazendo bonito e se mostrando atuais, dentro de “seus” tempos, ou seja - contemporâneas. Que venha o novo luxo! Que venha a consciência de se fazer direito e responsavelmente e de se voltar a fazer uma moda libertadora que tenha VOZ.

A Lily Berlim é designer, PHD em Ciências Sociais e mestre em Ciências Ambientais com pesquisa em tendências do consumo de Moda. A Lily também é autora do livro Moda e Sustentabilidade, uma reflexão necessária. Pesquisadora do Laboratório de Economia Criativa da ESPM, e da Universidade Veiga de Almeida. 
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