em 

TODO O SITE  

YES, nós temos BANANADA!

23.05.18

 #boogarins #brvnks #carne doce #festival bananada



Na última semana Goiânia foi, pela vigésima vez, palco de um encontro catártico entre música e público. O Bananada, um dos mais tradicionais festivais do Centro-Oeste, fez uma super comemoração pro seu aniversário de vinte anos, e reuniu um público totalmente diverso que ia desde os mais tradicionais apreciadores da tropicália de Gil, até a juventude lacradora fã da musa Pabllo Vittar e do pancadão do ÀTTØØXXÁ. Entre um extremo e outro, claro, muito indie, rock, rap e eletrônico.
Uma mistureba que é bem coisa nossa :)



No meio do line-up de peso, que reuniu artistas e bandas do Brasil inteiro, Goiânia e o centro do país estavam muito bem representados pra provar que se engana quem pensa que só de sertanejo vive a música local. Vindos de uma cena independente super forte e pulsante, o festival recebeu nomes como Bruna Mendez, BRVNKS, Boogarins e Carne Doce, todos filhotes da capital goiana.



Nascidos nos rolês no Centro Cultural Martim Cererê, o movimento autoral de Goiânia anda de mãos dadas com os grandes festivais da região, como o Bananada e o Goiânia Noise: “Os festivais são o motor da cena. Desde que eu comecei a tocar, participar dos festivais sempre foi uma meta e isso junta as pessoas. Com os festivais, a gente sempre assistia as bandas de fora e isso retroalimenta e ressignifica nossa arte”. Foi assim que começou meu papo com o Macloys, guitarrista do Carne Doce, banda que teve sucesso de crítica em seu último álbum, o feminista Princesa. Mac, que encabeça a banda junto com sua companheira de vida Salma Jô, enxerga também a importância do traço regionalíssimo do sertanejo pro desenrolar do movimento musical goiano: “É uma inspiração de contraposição. O Bananada começou a acontecer coincidindo com a festa agropecuária de Goiânia. O festival veio como um manifesto de que as coisas podiam ser mais diversas. A indústria do sertanejo é muito opressora: ocupa as rádios, as TVs, as mentes de um modo geral. Acho que é natural que haja uma contraposição onde existe uma força tão grande. Talvez se a gente não tivesse o sertanejo tão forte por aqui, a cena alternativa de Goiânia nem existiria.”


 
O vigor dos festivais e a dinâmica da música na cidade extrapolam os limites do estado e inspiram transformações que vão bem além de Goiânia. O papo inspirador com Ynaiã Benthroldo, baterista do genial Boogarins, deixou isso bem nítido. Yna, que tem no currículo bandas importantíssimas pra música nacional como o Macaco Bong, é de Cuiabá e mesmo antes de sair da cidade natal já se inspirava na movimentação que a capital goiana irradiava do centro do país. “O primeiro show que eu fiz com Macaco Bong fora de Cuiabá foi aqui e a cidade foi muito receptiva. Essa cena se tornou um espelho pra gente”, conta. A falta de referência artística em cidades fora do eixo Rio-SP é outro problema pungente que as bandas da região enfrentam: “Foi super importante vir pra cá e pra Brasília, porque foram lugares onde entrei em contato com a música erudita e pude conhecer músicos de nível mundial. A referência era muito importante pra que eu voltasse pra Cuiabá e promovesse cursos e festivais inspirados no que vi por aqui. Assim, pessoas que estivessem na mesma situação que eu podiam ter uma visão mais ampla. A dificuldade que a gente tinha em fomentar a cena autoral era global e conhecer outras regiões que passaram por essas questões e superaram incentivou a troca de informações e o fortalecimento da cultura como um todo”. O que era um dificultador foi subvertido em riqueza pelo pessoal da música no Centro-Oeste: “Nesse processo de criar e tentar resolver os problemas das nossas cidades, a gente foi desenvolvendo várias tecnologias que viraram empreendimentos ligados à cultura, educação, economia solidária, festivais de música… Isso virou um catalizador muito interessante de realidades e de troca. Você vira uma referência acessível pra novas gerações que você vê na rua, no mercado, tocando músicas de bandas locais, como Carne Doce e Boogarins”.
 
 
Agora com uma cena estabelecida e forte, as bandas do centrinho do país ganham projeção nacional, e seguem carregando suas origens nas letras e nos seus temas que são tão locais e globais ao mesmo tempo. Voltando às origens da cena autoral goiana, perguntei pra Salma se existia um paralelismo entre as influências que norteiam a criação da região — será que o sertanejo cantado por mulheres (ou feminejo, pros íntimos) seria resultado da mesma influência que ajudou a trazer Princesa pro mundo? “O feminejo fala muito sobre os mesmos temas do sertanejo tradicional, o ponto de vista da mulher sobre a mesma coisa de sempre. Já a narrativa do nosso meio é muito mais ideológica e de militância.”, explica. “Talvez o feminejo seja ainda mais politicamente eficiente no sentido de trazer discussões. A gente vai estar sempre falando pra um nicho, por mais que mire no mais popular e abrangente possível, a gente sabe que nossa linguagem ainda é muito ligada ao nosso status e estilo, então isso molda muito nosso público”, disse a vocalista do Carne Doce.


foto: gui guedes (@gguedes)

Trocando uma ideia com a Bruna, líder do BRVNKS — uma das revelações goianas nos últimos anos — ficou claro que a teoria sobre o alcance do feminejo é real: "Muita gente que não ouve sertanejo começou a gostar, eu inclusive nem ouço em casa sei tudo decorado. Os mundos [do rock e do sertanejo] seguem distantes mas querendo ou não no final das contas todo mundo tá sentindo alguma representação nisso". Pra ela, o momento de reafirmação feminina na música, ocupando os diversos espaços da indústria, é bem palpável pra além de estilos e rótulos: "Eu vejo muita coisa mudando, vejo pessoas prestando mais atenção e principalmente meninas mais novas tendo vontade de tocar e fazer suas próprias bandas. Já recebi muita mensagem de meninas que se sentiram influenciadas por mim e eu sempre digo pra não se preocuparem em fazer algo bom, só fazer algo já tá ótimo! Como mulher sabemos que somos mais cobradas que o normal pra fazer algo "de qualidade". Quanto mais menina fazendo, mais coisa boa aparece, mais coragem outras tem. Vão ter que aceitar e se acostumar que também fazemos as coisas!", concluiu.

Entender o impacto da música de Goiânia e o quanto um festival como o Bananada contribui pro seu crescimento fez a festa ganhar ainda mais sentido: o festival empurra a cena pra além do entretenimento e se mostra necessário para a diversificação da cultura de massa no Brasil. O fortalecimento das vozes que ecoam fora dos grandes centros vem somar com a força de uma geração de músicos e artistas com fome de mudança e sede de movimento — e quem só tem a ganhar com isso somos nós, o público.

Essa matéria lindona foi feita pela Déborah Nogueira, colaboradora do Sotaques FARM. E a foto de destaque é da Lara Dias, que também tá sempre com junto com a gente no Sotaques e outros projetos incríveis. <3


 
TOPO